Fim de uma era: depois de 75 anos de operação, de anos de reclamação da vizinhança e de um acordo com o Ministério Público que previa multa de R$ 10 mil por dia de atraso, a fábrica de lã de vidro encerrou a produção e vai virar centro de distribuição
Isover encerra produção de lã de vidro em Santo Amaro: fábrica de 75 anos vira centro de distribuição
🏭 Fim de uma chaminé que marcou gerações
Por décadas, o forno funcionou dia e noite espalhando fumaça pela vizinhança. Depois de reclamações, multas e um acordo judicial, ele foi desligado de vez. ⬇️
Depois de 75 anos de atividade contínua, a fábrica da Isover em Santo Amaro apagou as luzes da linha de produção. O encerramento não foi uma decisão espontânea: veio de um acordo judicial firmado com o Ministério Público, que previa multa de R$ 10 mil por dia de atraso caso a empresa não cumprisse o prazo estabelecido. A unidade fazia parte da paisagem industrial da zona sul de São Paulo desde 1951, quando começou a produzir material de isolamento térmico e acústico usado em obras por todo o país.
Por que a fábrica da Isover fechou depois de 75 anos em Santo Amaro?
A resposta começa muito antes de 2026. Moradores da região relatavam, havia anos, problemas ligados à operação da unidade industrial, que funcionava mesmo durante a madrugada. As queixas se acumularam até virarem uma pauta formal de fiscalização ambiental, com audiências públicas registrando relatos de fumaça densa saindo da chaminé em horários irregulares.
Nos últimos dois anos, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo já havia aplicado advertências e multas à fabricante por emissão irregular de odores e ruídos. Em nota, o grupo afirmou que sempre operou “em conformidade com a legislação”, mas o histórico de reclamações pesou na decisão final.
O incômodo não era pontual, e sim uma rotina que se repetia. Estes foram os principais problemas apontados pela vizinhança ao longo dos anos:
- Ruídos constantes durante o período noturno
- Forte odor espalhado pelo entorno da fábrica
- Fuligem depositada em casas e quintais próximos
- Fumaça densa liberada pela chaminé da unidade

O que previa o acordo assinado com o Ministério Público?
Diante da pressão da comunidade, a Isover assinou um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público de São Paulo e a Cetesb. O documento estabeleceu prazos rígidos e consequências financeiras claras caso a empresa não cumprisse o combinado. Além do fim da produção, o acordo também exige a gestão adequada de áreas contaminadas e o tratamento correto de resíduos industriais deixados pela operação.
O que muda na fábrica de Santo Amaro daqui para frente?
Com o forno desligado, a estrutura de Santo Amaro deixa de fabricar lã de vidro, mas não fecha as portas por completo. O terreno segue vinculado ao Grupo Saint-Gobain e passará a operar como centro de distribuição do material, garantindo o abastecimento do mercado brasileiro.
A transição, porém, tem custo social. O fim da produção afeta cerca de 100 funcionários contratados diretamente pela unidade, além de outros 50 trabalhadores indiretos ligados a transportadoras, fornecedores e prestadores de serviço da região. Segundo a Isover, o processo de desligamento foi conduzido de forma gradual, com o objetivo declarado de reduzir o impacto sobre essas famílias.
Vale lembrar que a mudança não representa a saída da Saint-Gobain do Brasil. O grupo francês, dono de diversas marcas ligadas à construção civil, segue com outras unidades ativas no país, e a própria Isover continuará vendendo seus produtos por aqui, agora fabricados em outras plantas.
A lã de vidro produzida pela Isover faz mal à saúde?
Esse é um ponto que costuma gerar dúvida entre quem mora perto de fábricas do tipo. Segundo a OSHA, agência americana de segurança no trabalho, a classificação das fibras minerais sintéticas mudou ao longo do tempo conforme novos estudos surgiram.
A trajetória científica desse material ajuda a entender o debate em torno da fábrica de Santo Amaro:
- 1987: a IARC classificou as fibras como possivelmente cancerígenas (Grupo 2B)
- 2001: uma nova revisão reclassificou parte das fibras como não classificáveis (Grupo 3)
- Hoje: o risco à saúde está mais associado à poeira respirável liberada durante a produção do que ao produto final instalado
O que essa história ensina sobre indústria e vizinhança?
O caso da Isover mostra como décadas de convivência entre fábrica e bairro podem chegar a um ponto de ruptura. O acordo com o Ministério Público virou o caminho encontrado para equilibrar produção industrial e qualidade de vida da população local.
Se você mora perto de alguma indústria e sente que algo incomoda a rotina do seu bairro, vale a pena procurar os canais de fiscalização ambiental da sua cidade.