As misteriosas pedras de até 320 quilos que se movem sozinhas e deixam longos rastros na lama seca de um deserto isolado
Cientistas precisaram de GPS, câmeras e uma rara combinação de água, gelo e vento para explicar um mistério observado durante décadas
Durante décadas, as pedras deslizantes de Racetrack Playa, no Vale da Morte, pareciam desafiar qualquer explicação simples. Algumas chegam a pesar cerca de 320 quilos e deixam sulcos que atravessam centenas de metros, embora ninguém conseguisse vê-las viajando pelo terreno. O mistério permaneceu aberto até pesquisadores presenciarem o fenômeno acontecendo diante deles.
Por que as pedras deslizantes intrigaram pesquisadores durante tantas décadas?
Racetrack Playa é o leito seco e extremamente plano de um antigo lago dentro do Parque Nacional do Vale da Morte, nos Estados Unidos. Espalhadas por sua superfície aparecem centenas de pedras acompanhadas por rastros marcados na lama ressecada, como se alguém tivesse arrastado cada bloco deliberadamente pelo deserto. Algumas permanecem imóveis durante anos antes de mudar de posição.
O problema era justamente testemunhar o movimento. Surgiram hipóteses envolvendo ventos violentos, redemoinhos, superfícies extremamente escorregadias e grandes placas de gelo. Porém, faltava observar diretamente uma pedra se deslocando e registrar ao mesmo tempo as condições ambientais capazes de produzir o fenômeno.
O que os cientistas instalaram no deserto para finalmente resolver o mistério?
Pesquisadores montaram uma estação meteorológica, câmeras de lapso de tempo e pedras equipadas com dispositivos GPS. O objetivo era registrar exatamente quando elas começassem a se mover e comparar os deslocamentos com temperatura, vento e condições da superfície.
Os principais elementos usados na investigação incluíram:
- Estação meteorológica.
- Câmeras de lapso de tempo.
- Rochas instrumentadas com GPS.
- Sensores de temperatura e vento.
- Observações presenciais durante o inverno.
A Scripps Institution of Oceanography publicou um vídeo mostrando o fenômeno e explicando as observações feitas pela equipe de Richard Norris. As imagens são especialmente importantes porque registram aquilo que durante décadas ninguém conseguira documentar de forma conclusiva: as pedras realmente se deslocando sobre Racetrack Playa.
Como as pedras deslizantes realmente conseguem atravessar o deserto?
A combinação necessária começa com água. Em determinados períodos do inverno, chuva suficiente forma uma lagoa rasa sobre a playa. Durante noites frias, a superfície dessa água congela e cria uma fina camada de gelo. Quando chega o dia e a temperatura sobe, o gelo começa a derreter e se quebra em grandes painéis flutuantes.
Então entram em ação ventos relativamente leves. Essas placas de gelo são empurradas sobre a água e pressionam as pedras à sua frente. A lama saturada oferece pouca resistência, permitindo que os blocos deslizem lentamente e deixem os famosos rastros. O estudo científico publicado na PLOS ONE registrou diretamente esse mecanismo.
As pedras precisam flutuar no gelo para conseguirem se mover?
Não. Essa é uma das correções mais interessantes em relação às hipóteses antigas. Os pesquisadores observaram gelo com apenas alguns milímetros de espessura, insuficiente para levantar completamente grandes pedras. Em vez de carregá-las como uma jangada, as placas funcionam mais como enormes lâminas empurrando os blocos sobre a lama extremamente molhada.
Os movimentos também são muito lentos. A equipe registrou velocidades de aproximadamente 2 a 6 metros por minuto, enquanto ventos sustentados de apenas 3 a 5 metros por segundo conseguiam movimentar o gelo. Por isso, mesmo alguém próximo poderia não perceber imediatamente que várias pedras estavam avançando.
| Fator | Condição observada |
|---|---|
| Água | Lagoa rasa sobre a playa |
| Gelo | Placas com poucos milímetros |
| Vento | Cerca de 3 a 5 m/s |
| Movimento | Aproximadamente 2 a 6 m/min |
Por que algumas pedras deslizantes deixam rastros com centenas de metros?
Uma mesma pedra pode se movimentar em diferentes episódios. Durante o estudo, uma das rochas instrumentadas acumulou um trajeto total de até 224 metros depois de mais de um evento. Também foram observadas dezenas de novas trilhas surgindo durante um único período favorável.
As placas de gelo podem atingir dezenas de metros e empurrar diversas pedras simultaneamente, criando rastros paralelos ou curvas semelhantes. Entretanto, quando o gelo se quebra, pedras próximas podem seguir trajetórias diferentes ou uma delas pode simplesmente permanecer parada. Isso explica parte dos padrões aparentemente inexplicáveis encontrados no solo.

O fenômeno acontece sempre que o inverno chega ao Vale da Morte?
Não. As condições necessárias são raras. É preciso haver água suficiente para formar uma lagoa rasa, noites frias capazes de congelá-la, aquecimento diurno para quebrar o gelo e vento constante para movimentar as placas antes que desapareçam completamente.
Em dezembro de 2013 e janeiro de 2014, os pesquisadores finalmente estavam no local quando essa combinação aconteceu. O estudo publicado em 2014 encerrou grande parte do mistério que cercava Racetrack Playa havia décadas. As pedras nunca estiveram realmente “andando sozinhas”: água, gelo, vento e lama formam juntos uma máquina natural extremamente lenta e difícil de testemunhar.
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