Divisão interna no Irã trava acordo sobre Ormuz
Fragmentação de poder em Teerã após morte de líder supremo dificulta consenso sobre negociações com Washington
Divergências entre facções políticas iranianas ameaçam o andamento de conversas indiretas com os Estados Unidos sobre o Estreito de Ormuz, via mediação de Omã.
Enquanto Washington descreve o contato como negociação direta, Teerã trata o assunto como discussão técnica sobre navegação, revelando um impasse que combina disputa diplomática e briga interna de poder.
O presidente americano Donald Trump declarou nesta semana manter conversas com o Irã sobre a hidrovia estratégica, classificando o momento como “última chance” da República Islâmica “antes da decapitação”.
Segundo Trump, o país aceitou retomar o diálogo a pedido de Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar e outras nações da região.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baghaei, confirmou apenas tratativas com Omã sobre a navegação pelo estreito, sem mencionar negociação com os americanos. Para analistas, os dois governos podem estar se referindo ao mesmo canal diplomático, cada um adaptando o discurso ao público interno.
Tráfego marítimo segue restrito
A circulação de navios pelo Estreito de Ormuz permanece reduzida, com embarcações ainda sob risco de ataques nas proximidades da via. De acordo com dados da consultoria marítima Kpler, citados pela agência Reuters, apenas seis navios comerciais cruzaram a rota em 3 de agosto, contra sete no dia anterior.
A expectativa de avanço nas tratativas já impactou o mercado internacional, com queda nos preços do petróleo e valorização em bolsas de valores. Contudo, esse movimento reflete apenas a sensibilidade do mercado a notícias sobre o estreito, sem indicar que a crise tenha sido superada.
O principal impasse envolve o grau de controle sobre o tráfego marítimo: o Irã busca manter fiscalização sobre embarcações que acessam o Golfo Pérsico, enquanto os Estados Unidos exigem reabertura irrestrita da rota à navegação internacional.
Para o analista político Babak Dorbeiki, ex-integrante do Centro de Pesquisas Estratégicas do Irã, “essas posições não podem ser facilmente conciliadas”. Segundo ele, a disputa já não gira em torno de saber se as partes conversam, mas sobre “como chamar essas conversas e o que cada lado espera obter com elas”.
Facções rivais disputam rumo das negociações
Dorbeiki identifica dois blocos internos com interesses opostos. Um deles, ligado à ideia de reconstrução econômica via acordo, entende que o país não sustenta a economia sem alívio de sanções e reabertura do estreito — grupo no qual estariam o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e setores da Guarda Revolucionária com interesses econômicos.
O bloco oposto, que reúne a Frente Paydari e outros ultraconservadores, rejeita qualquer entendimento com os americanos por considerá-lo uma derrota ideológica, defendendo a manutenção da resistência ao Ocidente.
Essa fragmentação se intensificou após a morte do então líder supremo Ali Khamenei, em ataque aéreo ocorrido em fevereiro, no início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã. Seu filho, Mojtaba Khamenei, assumiu o posto, mas não aparece publicamente desde então, o que alimenta especulações sobre seu estado de saúde.
Segundo Dorbeiki, esse vácuo de comando abriu espaço para que diferentes grupos aleguem representar a liderança do país. Já o presidente Masoud Pezeshkian deve seguir no cargo apesar da pressão política, já que sua saída neste momento geraria custos internos e externos elevados.
Outro analista consultado pela DW, Hassan Asadi Zeidabadi, aponta a existência de três correntes na cúpula iraniana: autoridades pressionadas pelos efeitos econômicos da guerra, favoráveis à negociação; militares que preferem fortalecer a posição do país antes de negociar; e setores ideológicos linha-dura, resistentes a qualquer acordo.
“Eles temem o dia seguinte a um acordo”, afirma Asadi Zeidabadi sobre esse último grupo, acrescentando que, para essas correntes, um entendimento com Washington representaria “o fim da era ideológica que representam e, em última instância, sua própria remoção”.
De acordo com o analista, esses setores temem perder espaço no Parlamento, no aparato de segurança e na estrutura de propaganda estatal caso o país feche um acordo com os americanos.
O desenrolar das conversas indiretas, mediadas por Omã, deve depender do equilíbrio de forças entre essas facções.
Caso os defensores do acordo prevaleçam, argumentando que o isolamento ameaça a sobrevivência do sistema político, a via diplomática pode avançar. Se os grupos linha-dura conseguirem enquadrar qualquer concessão como rendição, o diálogo corre risco de fracassar.
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