A fenda submarina ultraprofunda de 11.000 metros onde cientistas encontraram algo vivo que mudou o que sabíamos sobre a biologia do planeta
Crustáceos e microrganismos adaptados à escuridão revelaram como células podem funcionar sob uma pressão quase mil vezes maior
Durante muito tempo, cientistas imaginaram que a pressão, a escuridão e o frio tornariam o ponto mais profundo dos oceanos praticamente estéril. No entanto, a vida na Fossa das Marianas mostrou que organismos conseguem ocupar ambientes muito mais extremos do que a ciência considerava possível.
Como a vida na Fossa resiste a quase 11.000 metros de profundidade?
A Fossa das Marianas fica no oeste do Oceano Pacífico e surgiu onde a Placa do Pacífico mergulha sob a Placa das Marianas. Dentro dela está a Depressão Challenger, considerada a parte mais profunda conhecida dos oceanos, com medições modernas próximas de 10.935 metros abaixo do nível médio do mar.
A cada dez metros de descida, a pressão aumenta aproximadamente uma atmosfera. Portanto, perto do fundo, os organismos enfrentam uma pressão cerca de mil vezes maior que a registrada na superfície, além de temperaturas baixas e escuridão permanente. Mesmo assim, microrganismos e pequenos invertebrados permanecem ativos.
Quais são as 4 formas de vida encontradas nas grandes profundidades?
Expedições que lançaram câmeras, armadilhas e equipamentos de coleta registraram diferentes grupos de organismos na região da fossa. A composição varia conforme a profundidade, o tipo de sedimento e a quantidade de alimento disponível em cada ponto.
- Anfípodes.
- Pepinos-do-mar.
- Foraminíferos.
- Bactérias e arqueias.
O vídeo publicado pela NOAA Ocean Exploration apresenta imagens da missão Deepwater Exploration of the Marianas, realizada com o navio Okeanos Explorer. O conteúdo mostra animais, formações geológicas e áreas pouco conhecidas do Monumento Nacional Marinho da Fossa das Marianas, além de explicar por que a exploração desse ambiente ajuda a compreender os limites da vida no planeta.
O que os anfípodes revelaram sobre a vida na Fossa?
Os anfípodes são pequenos crustáceos que lembram camarões e ocupam diferentes profundidades oceânicas. Nas fossas, algumas espécies aparecem em grande quantidade perto de iscas colocadas por pesquisadores, pois atuam como necrófagas e consomem restos de animais que afundam desde as camadas superiores.
A Alicella gigantea costuma aparecer em comparações sobre criaturas gigantes das profundezas, mas sua presença não foi confirmada no fundo da Depressão Challenger. Pesquisadores registraram essa espécie em outros ambientes abissais e hadais, inclusive na Fossa de Kermadec, a até cerca de 7.000 metros. Na Fossa das Marianas, outros anfípodes adaptados à pressão cumprem papel semelhante.
De onde vem o alimento em um lugar sem qualquer luz solar?
A ausência de luz impede a fotossíntese no fundo da fossa, mas não elimina todas as fontes de energia. Parte do alimento chega como partículas orgânicas, fezes, fragmentos de plantas, plâncton morto e carcaças que descem lentamente desde as regiões iluminadas do oceano.
Além disso, bactérias e arqueias conseguem aproveitar compostos químicos presentes na água e no sedimento. Em regiões com atividade hidrotermal ou liberação de substâncias do interior da Terra, alguns microrganismos realizam quimiossíntese e produzem matéria orgânica sem depender diretamente da luz solar.
Por que os animais não são esmagados pela pressão extrema?
Os organismos das grandes profundidades não carregam espaços internos cheios de ar como aqueles encontrados em muitos animais da superfície. Como seus corpos contêm grande quantidade de água, a pressão interna permanece próxima da pressão externa e reduz o risco de colapso físico imediato.
No entanto, sobreviver exige muito mais do que não ser esmagado. A pressão pode alterar membranas, proteínas e reações químicas essenciais. Por isso, espécies hadais desenvolveram adaptações bioquímicas que ajudam a manter as células funcionando, enquanto seus corpos geralmente apresentam tecidos flexíveis e estruturas menos rígidas.

O que a vida na Fossa mudou na compreensão da biologia?
As descobertas mostraram que a vida não depende de condições confortáveis, nem precisa receber luz solar diretamente para permanecer ativa. Elas também revelaram que organismos podem adaptar sua composição celular a pressões que destruiriam equipamentos comuns e seriam fatais para espécies da superfície.
Por isso, a exploração das fossas influencia pesquisas sobre evolução, microbiologia e astrobiologia. A existência de organismos em ambientes tão extremos reforça a possibilidade de que formas microscópicas de vida também sobrevivam em oceanos subterrâneos de outros mundos. A NOAA Ocean Exploration explica como pressão, temperatura, alimento e ausência de luz moldam os animais encontrados nas maiores profundidades.