Nasceu como aldeia guarani em 1763 e hoje abriga a fábrica que produziu 5 milhões de carros e se tornou a 4ª maior economia gaúcha
A fábrica mudou a economia e atraiu milhares de trabalhadores
Poucos municípios brasileiros conseguem contar uma história que começa com refugiados de guerra e desemboca em uma linha de montagem de alto volume. Gravataí, na Região Metropolitana de Porto Alegre, nasceu em 1763 como aldeamento de cerca de mil guaranis vindos das Missões e hoje ocupa a quarta posição entre as maiores economias do Rio Grande do Sul, impulsionada por um complexo industrial que acaba de cruzar a marca de 5 milhões de veículos.
Como uma aldeia de refugiados guaranis deu origem ao município?
A origem está em um acordo diplomático que deu errado. O Tratado de Madri, assinado em 1750, previa que Portugal entregaria a Colônia do Sacramento em troca dos Sete Povos das Missões, mas os guaranis que viviam ali se recusaram a abandonar as terras, o que desencadeou a Guerra Guaranítica e espalhou milhares de refugiados pelo território português.
Segundo a Câmara Municipal de Gravataí, aproximadamente mil indígenas desse contingente foram conduzidos pelo capitão Antônio Pinto Carneiro até as margens do rio Gravataí, formando a Aldeia de Nossa Senhora dos Anjos. O nome do município veio do tupi-guarani e significa rio dos gravatás, uma referência à vegetação que cobria as várzeas. A Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul registra que o povoado pertenceu primeiro a Viamão e depois virou freguesia da capital, antes de ganhar autonomia.

O que significa a marca de 5 milhões de veículos montados na cidade?
Significa que uma cidade sem tradição automotiva virou um dos endereços mais produtivos da indústria no país. De acordo com a General Motors, o Complexo Industrial Automotivo inaugurado em 2000 alcançou 5 milhões de unidades produzidas e tem capacidade instalada para 330 mil veículos por ano, com estamparia, polímeros, funilaria, pintura e montagem geral no mesmo terreno.
A fábrica foi a primeira da montadora fora de São Paulo e estreou no Brasil o conceito de condomínio industrial, no qual os fornecedores se instalam dentro da própria planta para encurtar o caminho até a linha. Hoje são 13 fornecedores e um operador logístico convivendo no mesmo perímetro. Ali saíram o Celta, o Prisma e a família Onix, líder de vendas na América do Sul, além do Sonic, lançado dentro de um ciclo de investimentos de R$ 1,2 bilhão anunciado para modernizar a unidade.

Por que Gravataí virou a quarta maior economia do Rio Grande do Sul?
Porque a indústria puxou uma cadeia inteira de serviços, comércio e logística ao redor. Conforme a Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão do RS (SPGG), o município subiu da sexta para a quarta posição no ranking estadual de Produto Interno Bruto, atrás apenas de Porto Alegre, Caxias do Sul e Canoas, com o segundo maior ganho de participação do estado no período analisado.
O salto colocou a antiga Aldeia dos Anjos à frente de nomes bem mais conhecidos fora do estado, como Pelotas, Novo Hamburgo e São Leopoldo, todos dentro do mesmo grupo dos dez maiores. O reconhecimento também chegou pelo lado da tecnologia: a Agência Sebrae de Notícias listou o município entre os três finalistas nacionais do 9º Prêmio Nacional de Inovação na categoria Ecossistemas de Inovação de pequeno porte, ao lado do SRI Norte Pioneiro, no Paraná, e do Vale do Seridó, no Rio Grande do Norte. É o mesmo tipo de movimento que tem colocado municípios do interior à frente de capitais em indicadores de qualidade de vida.
Onde ir em um fim de semana pela antiga Aldeia dos Anjos?
O centro histórico cabe em uma caminhada curta, e os distritos rurais guardam cachoeiras e áreas de camping a poucos minutos do asfalto. Confira abaixo os pontos mais interessantes para montar o roteiro:
- Igreja Matriz Nossa Senhora dos Anjos: templo em estilo barroco português cujas obras começaram em 1774, no mesmo terreno da primeira capela de pau a pique.
- Museu Municipal Agostinho Martha: acervo colonial do Vale do Rio Gravataí instalado em um sobrado português de cerca de 1870.
- Fonte do Forno: parada fora do óbvio, lembra a época em que a aldeia dependia de poços e fontes de quintal para beber água.
- Casarão dos Fonseca: também chamado de Solar das Magnólias, exibe telhado de telha canoa e janelas trazidas pela arquitetura açoriana.
- Morro Itacolomi: marco geográfico tão ligado à identidade local que aparece no brasão oficial do município.
- Cascatinha Morungava: duas quedas d’água no distrito rural, com churrasqueiras, restaurante e banheiros na área de apoio.
- Prainha de Morungava: área de lazer e camping com lago, pedalinho e campo de futebol, aberta de terça a domingo.
Quem quer conhecer uma das maiores economias do Rio Grande do Sul, vai curtir esse vídeo do canal Paz, Amor e Viagem, com mais de 100 mil inscritos, sobre Gravataí:
Quando é a melhor época para visitar Gravataí?
O clima é subtropical, com quatro estações bem marcadas e chuva distribuída ao longo do ano inteiro. Veja abaixo o comportamento de cada período e o que rende mais em cada um:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Conheça a cidade que nasceu aldeia e virou linha de montagem
Gravataí reúne uma combinação rara no Rio Grande do Sul: memória guarani e açoriana preservada em casarões de dois séculos, cachoeiras a poucos minutos do centro e uma das operações industriais mais eficientes do país. Tudo isso a uma distância curta do aeroporto Salgado Filho, o que torna a cidade um bate-volta fácil para quem chega à capital gaúcha.
Você precisa reservar um dia para caminhar pela antiga Aldeia dos Anjos e entender como um povoado de refugiados virou a quarta maior economia do estado.
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