Márcio Coimbra na Crusoé: A reinvenção de Astana
Cazaquistão terá sua primeira eleição para um novo Parlamento em agosto, sob nova Constituição
No tabuleiro geopolítico contemporâneo, a Ásia Central transcendeu a condição de periferia pós-soviética para se consolidar como uma das arenas mais estratégicas da Eurásia.
Sob a confluência de interesses de Pequim, Moscou, Washington e Bruxelas, a região exige um olhar atento da análise internacional — e é precisamente em seu coração que se desenrola uma das transformações institucionais mais instigantes da atualidade.
Maior economia centro-asiática e detentor de recursos energéticos críticos, o Cazaquistão opera uma profunda reorganização em seu modelo de governança que merece ser observada de perto pela comunidade global.
A observação detida da política interna em Astana revela que o país não passa por meras alterações administrativas pontuais, mas por um projeto estruturado de reengenharia política.
O processo, cujas diretrizes ganharam tração a partir de um referendo constitucional em 2022, busca redefinir os limites do Poder Executivo, a dinâmica do sistema partidário e os mecanismos de representação popular.
Resgate histórico
A trajetória política do Cazaquistão é marcada pela transição de um passado nômade sob o Khanato Cazaque para a anexação ao Império Russo no século 19, posteriormente, a integração como república soviética no século 20.
Após a dissolução da URSS em 1991, o país emergiu como um Estado independente sob o comando de Nursultan Nazarbayev, que governou por quase três décadas, priorizando a estabilidade interna, atração de investimentos para os setores petroleiro e minerário, e uma pragmática diplomacia multivetorial de equilíbrio entre grandes potências.
Com a renúncia de Nazarbayev em 2019 e a ascensão de Kassym-Jomart Tokayev, o país enfrentou seu momento mais crítico em janeiro de 2022, durante os intensos protestos conhecidos como Qantar.
O episódio funcionou como catalisador popular para reformas constitucionais destinadas a edificar uma nova arquitetura de poder.
Buscando desmantelar o antigo modelo superpresidencialista, descentralizar o poder, fortalecer a sociedade civil e reduzir privilégios governamentais, essa reformulação terá seu ápice em agosto com a primeira eleição, já sob a nova Carta Magna, para o novo Parlamento, chamado de Kurultai.
A principal mudança estrutural desse processo reside na transição do antigo modelo bicameral — composto pelo Mazhilis e pelo Senado — para um órgão supremo unicameral de representação, formado por 145 membros eleitos por voto proporcional de listas partidárias para mandatos de cinco anos.
Sob a ótica…
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