Daniel Kahneman: “Nada na vida é tão importante quanto você pensa enquanto está pensando nele”. O estudo que comparou a Califórnia ao Meio-Oeste dos EUA
Daniel Kahneman explica a ilusão de foco com o estudo que comparou Califórnia e Meio-Oeste dos EUA, e por que o mesmo viés afeta decisões financeiras
“Nada na vida é tão importante quanto você pensa enquanto está pensando nele.” A frase é de Daniel Kahneman, psicólogo vencedor do Nobel de Economia de 2002, e batiza um dos vieses mais citados do livro Rápido e Devagar.
O que é a ilusão de foco, segundo Kahneman?
A ilusão de foco é a tendência de inflar a importância de qualquer coisa no momento em que a mente está concentrada nela, ignorando o peso de tudo mais que também compõe a vida.
Um detalhe isolado, olhado de perto, parece decidir a felicidade inteira de uma pessoa. Visto de longe, ao lado de dezenas de outros fatores do dia a dia, esse mesmo detalhe encolhe de tamanho.
Qual foi o estudo que comparou Califórnia e Meio-Oeste dos EUA?
Kahneman e o pesquisador David Schkade compararam quase 2 mil estudantes da Califórnia e do Meio-Oeste dos Estados Unidos no estudo publicado em 1998. Os dois grupos avaliaram tanto a própria satisfação com a vida quanto a satisfação esperada de alguém parecido morando na outra região.

O resultado: californianos e moradores do Meio-Oeste relataram níveis de felicidade geral praticamente idênticos, mas ambos os grupos acreditavam que morar na Califórnia tornaria a vida de qualquer um mais feliz, superestimando muito o peso do clima ensolarado sobre a felicidade real.
Por que isso também explica erros comuns com dinheiro?
A mesma ilusão aparece nas decisões financeiras: um aumento de salário, uma compra grande ou uma mudança de casa parecem, no momento da decisão, capazes de mudar a vida inteira, mas o efeito real sobre o bem-estar tende a ser menor e mais temporário do que a pessoa imagina antes de decidir.
- Comparar o próprio salário com o de um colega ocupa a atenção no momento, mas raramente muda a satisfação de vida no longo prazo.
- Uma compra grande planejada por meses costuma gerar menos impacto duradouro na felicidade do que o antecipado durante a espera.
Por que um psicólogo ganhou o Nobel de Economia por causa disso?
Kahneman nunca fez um curso formal de economia, mas dividiu o Nobel de Economia de 2002 com Vernon Smith por mostrar que decisões econômicas reais seguem atalhos mentais, não o cálculo racional que os modelos tradicionais supunham.
A ilusão de foco é um desses atalhos: explica por que gente inteligente, incluindo economistas, comete previsões erradas sobre a própria felicidade futura ao superestimar um único fator isolado.

Como perceber a ilusão de foco antes de uma decisão importante?
Kahneman, no livro Rápido e Devagar, publicado no Brasil pela Objetiva, sugere um teste simples: antes de decidir algo grande baseado num único fator (salário, clima, status), perguntar quanto tempo por dia esse fator específico realmente vai ocupar a atenção depois da decisão tomada.
Esse mesmo tipo de viés, que faz um detalhe isolado pesar mais do que deveria numa escolha financeira, está reunido no guia completo de psicologia do dinheiro do O Antagonista, que reúne outros vieses do mesmo tipo descritos por Kahneman e outros pesquisadores.

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