O povo da Etiópia onde mulheres usam discos de argila que podem passar de 12 cm nos lábios
Usados em cerimônias, danças e momentos de hospitalidade, os discos representam maturidade, identidade feminina e orgulho cultural
Uma imagem registrada no sul da Etiópia costuma provocar espanto imediato: um objeto circular parece modificar completamente o rosto de algumas mulheres. O detalhe que muitos enxergam apenas como algo exótico carrega ideias de pertencimento, maturidade e orgulho, além de revelar uma cultura muito mais complexa do que as fotografias turísticas sugerem.
Onde vive o povo Mursi no vale do Omo?
Os Mursi vivem no sudoeste da Etiópia, em um território de aproximadamente 2 mil quilômetros quadrados localizado entre os rios Omo e Mago. A população é estimada em menos de 10 mil pessoas e fala uma língua súrmica pertencente à família nilo-saariana.
Apesar de serem frequentemente apresentados como nômades completamente isolados, muitos grupos mantêm assentamentos relativamente estáveis e combinam criação de gado com agricultura. Durante a estação seca, famílias se aproximam das margens do Omo; com a chegada das chuvas, deslocam-se para áreas de pastagem onde permanecem perto dos rebanhos.
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Como as mulheres começam a usar os discos labiais?
A tradição costuma começar por volta dos 15 ou 16 anos, quando a jovem passa a ser reconhecida socialmente como adulta. O processo ocorre gradualmente, com peças pequenas substituídas por outras maiores ao longo do tempo. Nem todas chegam ao mesmo tamanho e algumas decidem interromper o alargamento ou não adotar a prática.
- Idade aproximada de início: 15 ou 16 anos
- Material mais comum: Argila, embora também existam peças de madeira
- Nome tradicional: Debhinya
- Tamanho documentado: 12 centímetros ou mais em alguns casos
- Formato Mursi mais comum: Circular
O vídeo “How Africa’s Lip Plate Tribe Eats!!”, publicado pelo canal Best Ever Food Review Show, visita uma comunidade Mursi e acompanha refeições, criação de animais e atividades cotidianas. Além de mostrar os discos fora das fotografias posadas, o registro ajuda a perceber que eles fazem parte de uma sociedade ligada à agricultura, ao gado e à vida comunitária:
O que os discos representam para o povo Mursi?
O significado não cabe em uma única explicação. A página antropológica Mursi Online descreve o disco labial como uma expressão da vida social adulta feminina, enquanto pesquisas de campo o relacionam à identidade, à autoestima, à capacidade reprodutiva e às noções locais de beleza.
O tamanho também depende da preferência da mulher e das características de seu próprio lábio. A ideia popular de que um disco maior determina automaticamente uma quantidade maior de gado no casamento não é confirmada pelos estudos: muitos acordos matrimoniais são definidos antes mesmo de a jovem começar a usar as peças.
Em quais momentos os pratos aparecem no cotidiano?
As mulheres não precisam permanecer com os discos durante todo o dia. Estudos etnográficos indicam que eles aparecem com maior frequência em cerimônias, casamentos, danças, encontros públicos e momentos de hospitalidade, como quando uma mulher serve uma refeição ao marido e aos convidados.
| Ocasião | Presença do disco |
|---|---|
| Casamentos | Marca a passagem para a vida adulta |
| Danças | Compõe a apresentação e os adornos |
| Refeições | Pode ser usado ao servir convidados |
| Turismo | Também aparece em fotografias pagas |
Algumas mulheres guardam duas ou três peças sobre o teto de suas casas e escolhem qual usar conforme a situação. Os modelos variam em tonalidade, acabamento e decoração, podendo apresentar argila avermelhada, marrom, escura ou em sua coloração natural.
A tradição continua igual entre as novas gerações?
A prática nunca foi completamente uniforme. Algumas mulheres valorizam discos grandes, enquanto outras preferem peças menores ou não desejam continuar usando o adorno. Pesquisas registram diferenças entre comunidades do norte e do sul do território Mursi, além de mudanças nas preferências por modelos de madeira e argila.
O turismo acrescentou uma nova dimensão à tradição. Mulheres passaram a produzir peças decoradas para vender e a cobrar por fotografias, transformando a curiosidade dos visitantes em uma fonte de renda. Isso não significa que a cultura tenha se tornado falsa, mas mostra como suas integrantes adaptam símbolos antigos às condições econômicas atuais.

Por que o povo Mursi não deve ser resumido a uma fotografia?
Os discos labiais se tornaram a característica mais conhecida da comunidade, mas representam apenas uma pequena parte de sua organização. A sociedade Mursi possui tradição oral, pinturas corporais, criação de gado, agricultura, cerimônias de cura, divisões por faixas etárias e lideranças exercidas por anciãos reconhecidos por sua capacidade de argumentação.
A região é remota, mas não está separada do restante da Etiópia. Estradas, mercados, turistas, funcionários públicos e organizações externas ampliaram o contato com outras populações. Observar os discos apenas como uma curiosidade corporal apaga justamente o ponto mais importante: eles são escolhas inseridas em relações sociais, valores estéticos e transformações vividas pelas próprias mulheres.
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