O homem que salvou 669 crianças em trens e guardou o segredo por quase 50 anos
Aos 29 anos, o bancário britânico organizou documentos, famílias acolhedoras e transportes para retirar crianças ameaçadas de Praga
Durante décadas, uma pasta com fotografias, nomes e cartas permaneceu esquecida em uma casa inglesa. Quando aquele arquivo reapareceu, revelou que um bancário havia participado de uma operação capaz de mudar o destino de centenas de famílias, sem transformar o feito em uma história pública.
Quem era Nicholas Winton antes de chegar a Praga?
Nicholas Winton nasceu em Londres, em 1909, em uma família de ascendência judaico-alemã, e trabalhava como corretor da Bolsa. Em dezembro de 1938, aos 29 anos, desistiu de uma viagem de esqui para visitar o amigo Martin Blake na então Tchecoslováquia, onde refugiados fugiam das regiões ocupadas pela Alemanha nazista.
Em Praga, ele conheceu o trabalho realizado por voluntários como Doreen Warriner e visitou locais que recebiam famílias deslocadas. Diante da aproximação de uma guerra e da perseguição crescente aos judeus, percebeu que havia crianças correndo perigo imediato e decidiu ajudar a criar uma operação inspirada nos transportes infantis que já retiravam menores da Alemanha e da Áustria.
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Como Nicholas Winton organizou os transportes das crianças?
Winton abriu inicialmente uma seção infantil sem autorização formal, recebeu pedidos de famílias em Praga e retornou a Londres para encontrar casas dispostas a acolher os menores. Durante o dia, mantinha seu emprego; à noite, escrevia cartas, divulgava fotografias, arrecadava recursos e negociava documentos. A operação não foi individual: Trevor Chadwick, Doreen Warriner e outros voluntários trabalharam na Tchecoslováquia e na Grã-Bretanha para tornar as viagens possíveis.
- Encontrar uma família ou instituição britânica para cada criança
- Reunir fotografias, nomes e documentos de viagem
- Conseguir autorizações para atravessar diferentes países
- Arrecadar a garantia financeira exigida pelo governo britânico
- Organizar a recepção das crianças ao chegarem a Londres
- Coordenar os embarques com os voluntários que permaneciam em Praga
O vídeo “Sir Nicholas Winton – BBC Programme ‘That’s Life’ aired in 1988”, publicado no canal aggy007, apresenta o momento em que a operação foi revelada ao público e mostra adultos que haviam viajado nos transportes organizados em 1939. O registro complementa a pauta ao transformar uma lista de 669 nomes em pessoas reais reunidas décadas depois diante do homem que ajudou a organizar sua saída.
O que precisava acontecer antes de cada trem deixar Praga?
A entrada das crianças na Grã-Bretanha dependia de uma família acolhedora e de uma garantia de 50 libras por menor, valor reservado para uma eventual saída futura do país. Winton divulgava fotografias em jornais e procurava voluntários, instituições religiosas e famílias dispostas a assumir a responsabilidade por crianças que, na maioria dos casos, nunca haviam conhecido.
O primeiro grupo organizado por ele deixou Praga de avião em 14 de março de 1939. Depois da ocupação alemã das terras tchecas, outros sete transportes partiram de trem, atravessaram a Alemanha e seguiram de navio pelo Canal da Mancha. Os responsáveis aguardavam nas estações britânicas, enquanto muitos pais que haviam colocado os filhos nos vagões permaneceram na Europa ocupada.
Quais números mostram a dimensão real do resgate?
Entre março e agosto de 1939, oito transportes organizados pela rede ligada a Winton retiraram crianças ameaçadas da Tchecoslováquia. O caderno preservado por ele registrava 664 nomes, e uma pesquisa posterior identificou outras cinco pessoas levadas em uma viagem financiada pela operação, consolidando o total oficial de aproximadamente 669 crianças, a maioria judia.
| 29 anos | Idade de Winton ao iniciar a operação |
| 8 transportes | Viagens realizadas entre março e agosto de 1939 |
| £50 | Garantia exigida para cada criança |
| 669 | Total oficial aproximado de crianças salvas |
| 250 crianças | Grupo do último trem planejado, que não conseguiu partir |
Uma última composição estava preparada para sair em 1º de setembro de 1939 com cerca de 250 crianças, mas a invasão da Polônia naquele mesmo dia interrompeu os transportes. Setenta anos depois, uma viagem comemorativa partiu da estação principal de Praga na data em que aquele trem deveria ter saído, levando sobreviventes e seus descendentes pela antiga rota.
Por que Nicholas Winton permaneceu desconhecido por quase 50 anos?
Depois da guerra, Winton seguiu sua vida profissional e comunitária sem promover amplamente o trabalho realizado em 1939. O resgate permaneceu praticamente desconhecido até 1988, quando sua esposa, Grete, encontrou uma pasta e um antigo caderno com fotografias, listas de nomes, endereços das famílias acolhedoras e cartas relacionadas às crianças.
Por isso, a expressão de que ele “guardou o segredo” resume uma história mais complexa. Os documentos não haviam sido destruídos nem escondidos para sempre, mas Winton não buscava reconhecimento e nem mesmo sua família conhecia toda a dimensão da operação. O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos registra que a descoberta do caderno foi o ponto de partida para a divulgação pública do caso.

O que aconteceu quando o passado foi revelado na televisão?
Em 28 de fevereiro de 1988, Winton participou do programa britânico That’s Life! sem saber como a produção havia organizado a plateia. Durante a gravação, a apresentadora revelou sua história e pediu que as pessoas salvas por ele se levantassem. Ao olhar ao redor, Winton percebeu que estava sentado entre homens e mulheres que haviam embarcado ainda crianças nos transportes de 1939.
O reconhecimento chegou tarde, mas se tornou internacional. Winton foi condecorado cavaleiro pela rainha Elizabeth II em 2003 e recebeu homenagens na República Tcheca, enquanto uma estátua foi instalada na plataforma da estação de Praga de onde os trens partiram. Ele morreu em 2015, aos 106 anos, deixando uma história que não pertence apenas a um homem, mas a uma rede de voluntários, famílias acolhedoras e pessoas que decidiram agir antes que as fronteiras fossem fechadas.
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