O arco de aço de 36 mil toneladas que percorreu 327 metros sobre trilhos para confinar o reator de Chernobyl
Montada em uma área menos contaminada, a estrutura de 108 metros foi empurrada inteira até cobrir o antigo sarcófago nuclear
Durante décadas, o reator destruído permaneceu sob uma cobertura erguida às pressas, cercada por estruturas instáveis e materiais radioativos. A solução definitiva exigiu construir um edifício maior que muitos estádios e fazê-lo avançar inteiro sobre uma usina nuclear.
Por que o arco de Chernobyl precisou substituir o primeiro sarcófago?
Após o acidente de abril de 1986, trabalhadores soviéticos ergueram rapidamente uma estrutura de concreto e aço sobre o reator 4. Conhecida como Objeto Abrigo ou primeiro sarcófago, ela reduziu a dispersão de materiais radioativos, mas havia sido construída em condições extremas, apoiada parcialmente sobre partes danificadas da própria usina. Com o passar dos anos, infiltrações, corrosão e elementos instáveis aumentaram a necessidade de uma proteção mais duradoura.
O Novo Confinamento Seguro não foi projetado apenas como uma segunda tampa. Segundo o Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento, a estrutura deveria impedir novas liberações, proteger o local contra fatores externos e criar um ambiente onde máquinas pudessem desmontar gradualmente o abrigo antigo e manipular resíduos sem expor trabalhadores diretamente.
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Como o arco de Chernobyl foi montado ao lado do reator?
A construção diretamente sobre o reator colocaria centenas de trabalhadores muito perto das áreas contaminadas. Por isso, o arco foi erguido em uma plataforma preparada nas proximidades, onde as condições radiológicas eram mais controláveis. Suas dimensões também impediam a montagem convencional: a estrutura foi dividida em duas metades gigantes, levantadas separadamente e unidas antes do deslocamento final.
- Preparação de uma plataforma afastada do reator
- Instalação de fundações temporárias e permanentes
- Montagem da primeira metade do arco
- Construção da segunda metade na mesma área
- União das duas estruturas com alinhamento milimétrico
- Instalação de revestimentos, sistemas e equipamentos internos
O vídeo oficial acompanha a fabricação das peças, a montagem das duas metades e o momento em que a estrutura avança sobre o reator destruído. As imagens mostram por que o projeto precisou ser executado longe do ponto mais contaminado e como milhares de componentes formaram um único arco metálico.
As duas metades foram conectadas em 2015, exigindo o alinhamento de 24 pontos de união ao longo de um vão de 257 metros. Depois da junção, aproximadamente mil parafusos foram ajustados para concluir a ligação estrutural antes das etapas finais de instalação.
Como 36 mil toneladas conseguiram percorrer 327 metros?
O confinamento não foi levantado por guindastes nem transportado sobre rodas comuns. Ele se apoiava em duas grandes vigas longitudinais de concreto e utilizava um sistema especial de deslizamento com 224 macacos hidráulicos. A cada ciclo, os equipamentos empurravam a estrutura aproximadamente 60 centímetros na direção do reator.
O percurso completo foi de 327 metros entre o ponto de montagem e a posição definitiva. O planejamento previa cerca de 40 horas efetivas de movimentação distribuídas por alguns dias, permitindo que os engenheiros interrompessem o processo para verificar alinhamento, pressão hidráulica e comportamento da estrutura. Em novembro de 2016, o arco alcançou sua base final e cobriu completamente o abrigo construído após o acidente.
Quais números revelam a escala do confinamento?
A cobertura possui 108 metros de altura, 162 metros de comprimento e um vão de 257 metros entre suas extremidades. A massa equipada chega a aproximadamente 36 mil toneladas, incluindo estrutura metálica, revestimentos, passarelas, ventilação e o sistema de pontes rolantes instalado no interior.
| A escala do Novo Confinamento Seguro | |
|---|---|
| 108 m | Altura aproximada do arco metálico |
| 257 m | Distância entre as bases laterais |
| 162 m | Comprimento sobre o reator destruído |
| 36 mil t | Peso total com equipamentos instalados |
| 327 m | Percurso realizado até a posição final |
A usina de Chernobyl informa que cerca de 24.860 toneladas correspondem às estruturas permanentes de aço, enquanto milhares de toneladas adicionais vieram de elementos temporários, revestimentos e sistemas tecnológicos. A construção também utilizou aproximadamente 650 mil parafusos estruturais e mais de 160 mil metros quadrados de revestimento interno e externo.
O que existe dentro do arco de Chernobyl?
Sob a cobertura foram instaladas duas grandes pontes rolantes controladas remotamente. Cada uma foi testada com cargas de até 100 toneladas e pode percorrer o interior do confinamento para alcançar partes instáveis do sarcófago antigo. Ferramentas suspensas nessas pontes poderão cortar, segurar e transportar fragmentos sem exigir a permanência de operadores junto ao reator.
O complexo também reúne ventilação, monitoramento radiológico, câmeras, sensores sísmicos, sistemas contra incêndio e instalações destinadas à descontaminação e ao acondicionamento de resíduos. A umidade relativa deveria ser mantida abaixo de 40% para limitar a corrosão, enquanto diferenças de pressão ajudariam a impedir que poeira radioativa escapasse do espaço confinado.

Por que a estrutura foi projetada para durar pelo menos 100 anos?
O prazo de um século não significa que os resíduos desaparecerão quando esse período terminar. Ele foi estabelecido para criar uma janela de segurança na qual as estruturas instáveis possam ser desmontadas, os materiais radioativos sejam caracterizados e novas tecnologias sejam desenvolvidas para lidar com o interior do reator. Estimativas divulgadas pelo EBRD apontam que aproximadamente 200 toneladas de material nuclear permaneceram na unidade destruída.
A entrega oficial do complexo ocorreu em 2019, depois de anos de testes nos guindastes, na ventilação e nos sistemas de controle. Financiado por mais de 45 países e pelo próprio EBRD, o programa internacional de segurança nuclear superou € 2,1 bilhões. O resultado foi uma estrutura sem precedente: um edifício de 36 mil toneladas montado inteiro, deslocado sobre trilhos hidráulicos e colocado sobre uma das áreas mais perigosas já criadas por um acidente industrial.
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