A plataforma de 108 metros que afundava a própria cauda até permanecer em pé no meio do oceano
A FLIP girava 90 graus, deixava 91 metros submersos e criava um ponto quase imóvel para estudar ondas, sons e movimentos do mar
Rebocada deitada como uma embarcação comum, ela chegava ao ponto de pesquisa e começava a desaparecer lentamente na água. Em menos de meia hora, corredores viravam paredes, portas pareciam instaladas no chão e 91 metros de sua estrutura ficavam escondidos sob o oceano, deixando apenas uma pequena seção erguida acima das ondas.
Por que a plataforma FLIP foi criada?
No início da década de 1960, pesquisadores da Marinha dos Estados Unidos precisavam medir pequenas alterações na direção e na intensidade de ondas sonoras que atravessavam o oceano. Submarinos e embarcações convencionais se movimentavam demais com as ondas, prejudicando os instrumentos e introduzindo erros em experiências que exigiam referências extremamente estáveis.
Os cientistas Fred Fisher e Fred Spiess, do laboratório de física marinha da Scripps Institution of Oceanography, perceberam que uma estrutura comprida colocada verticalmente se comportaria como uma boia de grande profundidade. O projeto foi construído em 1962 com financiamento do Office of Naval Research e recebeu o nome FLIP, abreviação de Floating Instrument Platform.
Como a plataforma FLIP girava 90 graus?
A estrutura não possuía motores para navegar e precisava ser puxada horizontalmente por rebocadores até a área escolhida. No local, válvulas permitiam a entrada de água do mar em grandes tanques de lastro instalados na parte traseira. O peso aumentava progressivamente até a extremidade afundar e todo o corpo girar para a posição vertical.
- Comprimento total: Aproximadamente 108 metros
- Parte submersa: Cerca de 91 metros
- Seção acima da água: Aproximadamente 17 metros
- Duração da rotação: Menos de 30 minutos
- Peso da estrutura: Cerca de 700 toneladas
- Propulsão própria: Nenhuma
O vídeo da Scripps Oceanography registra a transformação completa da FLIP, desde o início da entrada de água nos tanques até o momento em que a proa permanece apontada para o céu. As imagens mostram como a mudança ocorre lentamente durante quase todo o processo e acelera nos segundos finais, quando os conveses assumem sua posição vertical:
Por que ela permanecia quase imóvel mesmo com ondas fortes?
Na posição horizontal, a estrutura reagia ao movimento da superfície como qualquer embarcação. Quando ficava em pé, porém, grande parte de sua flutuação passava a depender da água localizada muito abaixo da zona mais afetada pelas ondas. Seu casco comprido, estreito e pesado funcionava como uma enorme boia vertical, reduzindo movimentos que poderiam comprometer as medições.
Segundo os dados técnicos da Scripps, mesmo diante de ondas com aproximadamente 10 metros, o deslocamento vertical total podia permanecer abaixo de 1 metro. A ausência de hélices e motores de propulsão também diminuía vibrações e ruídos, criando condições favoráveis para hidrophones e sensores que precisavam captar sons muito fracos no interior do oceano.
Como era viver dentro de uma estrutura que mudava de posição?
A rotação transformava completamente a orientação dos ambientes. O que era piso durante o reboque tornava-se parede durante a operação científica. Por isso, portas, escadas, lâmpadas e janelas apareciam em posições que pareciam erradas para quem visitava a estrutura pela primeira vez. Alguns equipamentos eram montados em suportes giratórios, enquanto outros existiam em duas orientações diferentes.
| Portas e escotilhas | Podiam parecer instaladas no piso ou no teto |
| Pias e sanitários | Foram duplicados para as duas orientações |
| Motores e fogão | Giravam em suportes para continuar nivelados |
| Alojamentos | Recebiam 5 tripulantes e até 11 cientistas |
A plataforma conseguia sustentar missões de até 30 dias sem reabastecimento e transportava água potável, geradores, laboratórios, cozinha e dormitórios. O processo de rotação exigia que todos permanecessem em áreas seguras, especialmente nos instantes finais, quando a mudança de inclinação se tornava rápida e tudo precisava estar preso corretamente.
O que a plataforma FLIP conseguia medir no oceano?
Sua estabilidade permitia posicionar hidrophones, sonares, medidores de pressão e sensores de temperatura em diferentes profundidades. Instrumentos podiam ser fixados ao casco submerso, suspensos por braços externos ou baixados por cabos a milhares de metros. Assim, os pesquisadores observavam o oceano sem grande parte das vibrações e interferências produzidas por um navio tradicional.
Ao longo de mais de 300 missões, ela participou de pesquisas sobre propagação do som, ondas internas, turbulência, temperatura da água, interação entre oceano e atmosfera e comportamento de mamíferos marinhos. A estrutura também ajudou a medir ruídos ambientais e a acompanhar sons de baleias e golfinhos, aproveitando o silêncio proporcionado pela ausência de propulsão.

O que aconteceu depois de sua última missão científica?
A última viagem de pesquisa ocorreu em 2017. Em agosto de 2023, após avaliações indicarem que uma reforma completa teria custo elevado, a Scripps retirou a estrutura de serviço e a enviou para uma instalação de desmontagem. Parecia ser o encerramento definitivo de uma carreira iniciada 61 anos antes.
O destino mudou quando a empresa de engenharia submarina DEEP adquiriu a FLIP antes de sua destruição. A estrutura foi transportada até a França para passar por modernização, com previsão de receber novos sensores, sistemas de comunicação e capacidade computacional. Assim, a plataforma criada para ficar em pé no oceano escapou do desmonte e poderá voltar a servir como laboratório flutuante.
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