A obra que desviou o rio Paraná, consumiu concreto para 210 Maracanãs e criou um lago de 170 km
A construção de Itaipu removeu 55 milhões de metros cúbicos de terra e rocha e mobilizou cerca de 40 mil trabalhadores entre Brasil e Paraguai
Antes que a primeira turbina girasse, foi necessário enfrentar um problema que parecia maior do que a própria barragem: abrir espaço no leito de um dos rios mais volumosos da América do Sul. A construção de Itaipu não começou levantando paredes, mas convencendo o rio Paraná a correr por outro caminho.
Por que foi preciso mudar o curso de um rio tão poderoso?
A usina foi planejada na fronteira entre Brasil e Paraguai, em um trecho onde o Paraná reunia grande vazão e desnível suficiente para produzir energia em larga escala. As obras começaram em 1975, mas a barragem principal não poderia ser construída enquanto a correnteza continuasse atravessando o local escolhido para suas fundações.
A solução foi criar uma passagem temporária na margem esquerda, capaz de receber o fluxo enquanto o antigo leito fosse fechado e transformado em canteiro. Isso exigiu escavações profundas em terra e rocha, ensecadeiras para conter a água e uma sequência calculada de explosões, concretagens e movimentações de material.
Quanto material entrou na Barragem de Itaipu?
Os números ajudam a mostrar por que o empreendimento foi tratado como uma obra sem precedentes na região. A estrutura completa alcança 7.919 metros de extensão, chega a 196 metros no ponto mais alto e consumiu milhões de metros cúbicos de concreto, além de uma quantidade de ferro e aço comparada a centenas de torres monumentais.
- Concreto utilizado: 12,7 milhões de metros cúbicos
- Escavação em terra: 23,6 milhões de metros cúbicos
- Escavação em rocha: 32 milhões de metros cúbicos
- Ferro e aço: Quantidade suficiente para cerca de 380 Torres Eiffel
- Concreto equivalente: Aproximadamente 210 estádios como o Maracanã
O vídeo do canal O Canal da Engenharia reúne imagens históricas do canteiro, do canal de desvio e das estruturas de concreto crescendo sobre o antigo leito do Paraná. As cenas ajudam a visualizar a escala das escavações, o ritmo da concretagem e o tamanho dos equipamentos usados para transformar o rio em uma fonte de energia:
Como o canal de desvio abriu caminho para a construção?
Para conduzir o Paraná para fora de seu leito original, as equipes removeram aproximadamente 55 milhões de metros cúbicos de terra e rocha. Em 20 de outubro de 1978, explosões romperam as barreiras que separavam o rio do canal escavado, permitindo que a água ocupasse a nova passagem.
Com a correnteza direcionada para a lateral, grandes ensecadeiras fecharam o trecho que ficaria seco. Foi nesse espaço que avançaram a barragem principal, a tomada d’água e partes da casa de força. A documentação histórica da Itaipu Binacional mostra que o desvio não foi uma intervenção isolada, mas a etapa que reorganizou todo o canteiro e determinou a ordem das obras seguintes.
Como a Barragem de Itaipu mobilizou uma cidade inteira?
A construção funcionava durante todo o dia, com fábricas de concreto, oficinas, britagem de rochas, transporte de peças e frentes de serviço distribuídas pelas duas margens. No auge, aproximadamente 40 mil pessoas trabalhavam diretamente nos canteiros e escritórios de apoio, exigindo uma estrutura urbana paralela para sustentar a operação.
| Rocha removida | Abriu o canal e expôs as fundações |
| Concreto lançado | Formou barragens, vertedouro e casa de força |
| Aço instalado | Reforçou estruturas e equipamentos |
| Infraestrutura humana | Mais de 9 mil moradias, escolas e hospitais |
A chegada dos trabalhadores alterou profundamente Foz do Iguaçu e as cidades do lado paraguaio. Mais de 9 mil moradias foram construídas, além de escolas, hospitais, vias e sistemas de transporte. Em uma década, a população de Foz do Iguaçu passou de cerca de 20 mil para mais de 100 mil habitantes, mostrando que a obra cresceu muito além das margens do rio.
O que aconteceu quando o reservatório começou a subir?
Em outubro de 1982, as comportas do canal de desvio foram fechadas e a água começou a se acumular atrás das estruturas concluídas. O planejamento previa até 90 dias para o reservatório atingir a cota necessária, mas uma cheia histórica acelerou o processo: em apenas 14 dias, o nível alcançou a marca esperada.
O lago formado passou a ocupar cerca de 1.350 quilômetros quadrados, divididos entre Brasil e Paraguai, armazenando aproximadamente 29 bilhões de metros cúbicos de água e estendendo-se por cerca de 170 quilômetros. Para abrir esse espaço, propriedades, estradas, áreas agrícolas e antigas paisagens desapareceram sob a água, enquanto milhares de moradores precisaram ser indenizados ou reassentados.

Por que a Barragem de Itaipu ainda impressiona décadas depois?
A primeira unidade entrou em operação em maio de 1984. Com a instalação gradual das demais máquinas, Itaipu chegou a 20 unidades de 700 megawatts cada, totalizando 14 mil megawatts de potência instalada. A água percorre condutos com 10,5 metros de diâmetro interno antes de movimentar turbinas ligadas aos grandes geradores.
O que torna a obra tão difícil de imaginar não é apenas sua altura ou comprimento. Itaipu exigiu desviar um rio, remover mais de 55 milhões de metros cúbicos de material, lançar concreto em ritmo industrial, construir bairros para milhares de trabalhadores e controlar o nascimento de um lago com 170 quilômetros. O Paraná não foi simplesmente bloqueado: cada parte de sua força precisou ser redirecionada, medida e incorporada ao funcionamento da usina.
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