Milhares de círculos vazios surgem no deserto e ninguém concorda sobre quem os construiu
Cupins e gramíneas disputando água estão no centro de um debate científico que atravessa décadas
Do alto, o deserto parece ter sido perfurado por milhares de moldes circulares. Cada área vazia surge cercada por gramíneas mais altas, e o conjunto se repete com uma regularidade difícil de atribuir ao acaso. O mais intrigante é que, mesmo após décadas de estudos, os cientistas ainda discordam sobre o processo responsável por esse desenho.
O que são os círculos da Namíbia espalhados pelo deserto?
Conhecidos como “círculos de fadas”, eles são trechos quase redondos de solo descoberto, cercados por campos de gramíneas no deserto do Namibe. A maior concentração aparece em uma extensa faixa árida que atravessa a Namíbia e alcança partes de Angola e da África do Sul. Muitos círculos medem entre 4 e 8 metros, embora alguns ultrapassem 20 metros de diâmetro.
Essas formações não são marcas fixas e eternas. Imagens aéreas mostraram que novos círculos podem surgir, aumentar de tamanho e desaparecer depois de algumas décadas. Estimativas indicam durações médias próximas de 40 anos, com os maiores permanecendo ativos por períodos mais longos.
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Por que os círculos da Namíbia formam um padrão tão organizado?
O que mais chama atenção não é apenas a ausência de plantas no centro, mas o espaçamento entre as áreas vazias. Em muitos pontos, cada círculo mantém uma distância semelhante dos vizinhos, criando um padrão comparável ao de células distribuídas sobre uma superfície. Essa regularidade levou pesquisadores a suspeitar de mecanismos que atuam continuamente em toda a paisagem.
- Os centros permanecem praticamente sem vegetação
- Gramíneas mais altas costumam crescer nas bordas
- Os círculos mantêm distâncias relativamente regulares
- O tamanho tende a aumentar em ambientes mais secos
- Novas formações podem aparecer após mudanças nas chuvas
- Círculos antigos também podem ser recolonizados por plantas
O documentário “Mystery of the Fairy Circles”, publicado pelo canal Free High-Quality Documentaries, acompanha pesquisadores no deserto do Namibe e apresenta as diferentes explicações propostas para o fenômeno.
A organização é importante porque processos aleatórios, como animais escavando pontos isolados, dificilmente produziriam sozinhos uma distribuição tão uniforme em milhares de quilômetros quadrados. Modelos ecológicos mostram que a competição por recursos pode gerar padrões regulares sem que exista um planejador central.
Como os cupins poderiam criar milhares de áreas sem grama?
Uma das hipóteses mais conhecidas atribui os círculos a cupins-da-areia, especialmente à espécie Psammotermes allocerus. Segundo essa explicação, os insetos danificariam ou consumiriam raízes de gramíneas jovens. Sem plantas retirando água do solo, a área central funcionaria como um reservatório subterrâneo que ajudaria a sustentar os cupins e a vegetação resistente das bordas.
Defensores da hipótese encontraram cupins e galerias subterrâneas em muitas formações. O problema é que esses insetos nem sempre aparecem no centro dos círculos, e pesquisadores questionam se a atividade das colônias explicaria sozinha o espaçamento, a estabilidade e o ciclo de nascimento e desaparecimento das áreas vazias. Uma revisão publicada em 2025 destacou que essas inconsistências continuam alimentando o debate.
A competição por água consegue produzir círculos quase perfeitos?
A hipótese da auto-organização vegetal parte de uma situação comum em ambientes extremamente secos: não existe água suficiente para todas as plantas. Gramíneas já estabelecidas desenvolvem raízes mais profundas e retiram umidade das áreas próximas, deixando mudas recém-germinadas sem recursos para sobreviver no centro dos espaços vazios.
| O ciclo proposto pela hipótese da água | |
| Após a chuva | Sementes germinam dentro e fora do círculo |
| Poucos dias depois | Gramíneas adultas começam a puxar água pelas raízes |
| Solo superficial | A camada rasa perde umidade rapidamente |
| Resultado | As mudas centrais secam, preservando a área circular |
Medições realizadas após períodos de chuva indicaram que gramíneas novas surgiam no interior dos círculos, mas secavam entre 10 e 20 dias depois. Pesquisadores observaram que a água desaparecia da camada superficial à medida que as plantas maiores das bordas voltavam a crescer. Para esse grupo, o padrão circular maximiza o acesso das gramíneas restantes à umidade limitada.
Por que os estudos chegam a conclusões tão diferentes?
Boa parte da divergência está na interpretação do que acontece primeiro. Pesquisadores favoráveis aos cupins afirmam que danos nas raízes iniciam a morte das plantas. Os defensores da auto-organização respondem que as mudas apresentam raízes intactas e morrem por desidratação antes que a herbivoria consiga explicar o desaparecimento da vegetação.
O ambiente também dificulta experiências definitivas. As chuvas são raras e irregulares, obrigando equipes a acompanhar grandes áreas no momento exato em que as sementes germinam. Cupins podem aparecer depois que o círculo já começou a se formar, enquanto a umidade do solo muda rapidamente. Assim, encontrar insetos e solo úmido no mesmo lugar não resolve automaticamente qual processo iniciou o fenômeno.

Os círculos da Namíbia podem ter mais de uma causa?
Uma possibilidade crescente é que não exista uma disputa simples entre cupins e plantas. Os insetos podem influenciar a vegetação e conservar umidade, enquanto a competição entre raízes determina o tamanho, o espaçamento e a persistência dos círculos. O peso de cada mecanismo também pode variar conforme o solo, a chuva e a região analisada.
A revisão científica mais recente descreve o tema como uma área ainda marcada por controvérsias, e novos trabalhos continuam tentando conciliar observações aparentemente incompatíveis. A Universidade de Göttingen sustenta que o estresse hídrico e a auto-organização das gramíneas explicam a morte das plantas, enquanto pesquisadores de Hamburgo defendem o papel central dos cupins.
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