Ferrovia inaugurada por Dom Pedro II em 1881 segue em operação contínua há 145 anos: cidade com 700 imóveis tombados pelo IPHAN e foi eleita Capital Brasileira da Cultura com apoio da UNESCO
Igrejas, casarões e ruas preservadas mantêm viva a memória da cidade
Poucas cidades brasileiras conseguem manter em funcionamento uma ferrovia inaugurada por um imperador. São João del-Rei, no Campo das Vertentes, a 185 km de Belo Horizonte, guarda o trem a vapor mais antigo do Brasil em operação contínua. A cidade nasceu no ciclo do ouro, resistiu à decadência do metal precioso e mantém hoje um conjunto raro de 700 imóveis históricos tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), uma tradição de sinos que virou patrimônio imaterial e o título de Capital Brasileira da Cultura.
Como uma ferrovia inaugurada por Dom Pedro II segue em operação depois de 145 anos?
A resposta está em uma decisão de preservação rara no país. Segundo o programa Estação de Memórias, o Trem Inaugural da Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM) chegou à cidade às 22h do dia 28 de agosto de 1881, conduzido pelo maquinista Felipe Marcheti, trazendo a bordo o imperador Dom Pedro II e a imperatriz Dona Teresa Cristina.
Nos tempos áureos, a EFOM chegou a ter mais de 600 km de extensão. Hoje, os 12 km entre São João del-Rei e Tiradentes são o único trecho sobrevivente, operado com quatro locomotivas a vapor e vagões de madeira centenários. A bitola de 76 cm, mais estreita que o padrão brasileiro, rendeu à ferrovia o apelido carinhoso de Bitolinha. Em 1989, o complexo ferroviário foi tombado pelo IPHAN, incluindo locomotivas, vagões, estações e oficinas de manutenção.

Como uma cidade guarda 700 imóveis históricos preservados desde o século 18?
A resposta está no fato de a cidade não ter parado no tempo. Segundo o IPHAN, o núcleo urbano se formou a partir de 1704, quando o paulista Lourenço da Costa descobriu ouro no Ribeirão de São Francisco Xavier, ao norte da Serra do Lenheiro. Em 1713, o arraial foi elevado a vila em homenagem a Dom João V, rei de Portugal.
Ao contrário das vizinhas mineradoras, São João del-Rei continuou crescendo nos séculos XIX e XX. Encontrou no comércio, na agropecuária e, mais tarde, em indústrias têxteis as suas fontes de renda, o que garantiu a preservação de um dos maiores conjuntos setecentistas de Minas Gerais. O acervo arquitetônico e paisagístico é tombado pelo IPHAN desde 1938 e reúne cerca de 700 imóveis protegidos.

Por que a cidade foi eleita Capital Brasileira da Cultura?
Pela combinação rara de tradição musical, arquitetônica e educacional. Em 2007, São João del-Rei foi escolhida Capital Brasileira da Cultura, título concedido com apoio do Ministério da Cultura, do Ministério do Turismo e da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Segundo o Museu Regional de São João del-Rei, vinculado ao Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), a cidade desbancou outros municípios históricos por sua herança cultural e patrimônio arquitetônico. Foi a segunda cidade brasileira a receber a chancela, depois de Olinda, em Pernambuco.
Dois anos depois, o Ministério do Turismo incluiu a cidade entre os principais destinos de Turismo de Estudos e Intercâmbio do Brasil, seleção que considerou a combinação de patrimônio cultural preservado e a presença da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). A cidade é sede de festivais tradicionais, como o Inverno Cultural da UFSJ, que reúne artistas de todo o país todos os anos.

Por que a cidade é chamada de Terra onde os Sinos Falam?
Porque cada toque tem significado próprio. Os moradores identificam qual igreja celebra a missa, se haverá procissão, se houve um casamento ou até se a pessoa falecida era homem ou mulher. Os sinos giram 360 graus sobre o próprio eixo e cada repique carrega uma mensagem específica.
A tradição é tão antiga quanto rara. Segundo o Governo de Minas Gerais, o toque dos sinos foi reconhecido pelo IPHAN como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em 2009. A prática se preserva em São João del-Rei e em outras oito cidades mineiras, numa tradição que vem do período colonial, quando o toque das torres funcionava como sistema de comunicação da comunidade.

Por que a cidade é considerada berço de dois brasileiros ilustres?
Porque nasceram na região dois nomes que marcaram épocas distintas da história nacional. Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, líder da Inconfidência Mineira de 1789, nasceu na antiga Fazenda do Pombal, hoje pertencente ao município vizinho que leva seu nome. Segundo a Biblioteca Municipal Batista Caetano, os conspiradores chegaram a apontar São João del-Rei como futura capital da república independente que planejavam instaurar.
Dois séculos depois, foi na cidade que nasceu Tancredo Neves, em 1910. Eleito presidente da República em 1985, ele adoeceu antes de tomar posse e faleceu em 21 de abril, no mesmo dia em que Tiradentes foi executado, quase 200 anos antes. Ambos estão presentes no cotidiano da cidade, homenageados em museus, ruas e no memorial que leva o nome do ex-presidente.

O que ver na cidade onde os sinos falam?
O centro histórico concentra as principais atrações a poucos minutos de caminhada. Confira abaixo os pontos imperdíveis:
- Maria Fumaça até Tiradentes: trem a vapor mais antigo do Brasil em operação contínua desde 1881, com trajeto de 12 km às margens da Serra de São José.
- Igreja de São Francisco de Assis: iniciada em 1774 com projeto atribuído ao Aleijadinho, abriga o túmulo de Tancredo Neves no jardim de palmeiras imperiais.
- Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar: construída a partir de 1721, é a principal igreja da cidade, com altares em talha dourada.
- Museu Ferroviário: tombado pelo IPHAN em 1989, exibe a locomotiva EFOM nº 1, a mesma que transportou o imperador Dom Pedro II em 1881.
- Memorial Tancredo Neves: instalado no Solar dos Neves, casarão da família do ex-presidente, com acervo interativo sobre a política mineira.
- Ponte da Cadeia: construção de pedra do século XVIII sobre o Córrego do Lenheiro, um dos cartões-postais mais fotografados do centro.
- Igreja de Nossa Senhora do Carmo: outro exemplar do barroco mineiro, com altar e talha douradas.
- Rua Santo Antônio: chamada pelos moradores de Rua das Casas Tortas, um dos primeiros núcleos do povoamento da cidade.
- Museu Regional: acervo do cotidiano dos séculos XVIII e XIX, com balanças de pesar ouro, rocas, teares e arados.
- Serra de São José: cadeia montanhosa que emoldura a cidade, com trilhas, cachoeiras e mirantes.
Quem ama ferrovias e cidades históricas, vai curtir esse vídeo do canal De fora em Juiz de Fora, com mais de 140 mil visualizações, que explora São João del-Rei:
Como é o clima no Campo das Vertentes?
É tropical de altitude, com verões chuvosos e invernos secos e frios, favorecidos pelos 950 metros de altitude. Confira abaixo como o ano se organiza:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar em São João del-Rei?
A cidade fica no Campo das Vertentes, no centro de Minas Gerais. Está a 185 km de Belo Horizonte pela BR-040 e pela BR-265, cerca de 2h30 de carro. De São Paulo, o trajeto é de 490 km pela Rodovia Fernão Dias (BR-381). O aeroporto mais próximo com voos regulares é o Aeroporto Regional Presidente Itamar Franco, em Juiz de Fora. A rodoviária concentra linhas diárias para Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo.
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Conheça a cidade que preservou o Brasil colonial em pleno século 21
Poucos endereços no Brasil reúnem, em um único município, uma ferrovia inaugurada por um imperador e ainda em funcionamento, um conjunto de 700 imóveis tombados pelo IPHAN, o título de Capital Brasileira da Cultura concedido com apoio da UNESCO e uma tradição de sinos que virou patrimônio imaterial. São João del-Rei transformou o ciclo do ouro em memória viva, e mantém acesa há mais de 300 anos a chama de uma cidade que virou cenário permanente da história brasileira.
Você precisa subir a serra mineira e conhecer São João del-Rei, a cidade onde os sinos ainda falam e a Maria Fumaça de Dom Pedro II continua apitando depois de 145 anos.
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