Um plano de governo para o eleitor do Bolsonaro raiz
Propostas de Renan Santos se assemelham às da campanha do ex-presidente de 2018; mas dificilmente isso terá efetividade no eleitorado
Renan Santos, do Missão, decidiu fazer uma aposta que poucos candidatos brasileiros costumam fazer: colocar um programa de governo no centro da campanha. Enquanto boa parte dos presidenciáveis limita suas propostas a slogans e promessas genéricas, a sigla lançou um documento que detalha reformas fiscais, mudanças profundas no pacto federativo, uma política de segurança baseada no Direito Penal do Inimigo e um ambicioso projeto de reorganização do Estado brasileiro.
Do ponto de vista do debate público, um avanço. Agora, o problema de Renan Santos não é a falta de conteúdo. É o tamanho da barreira política que existe entre um bom programa e uma boa votação.
Crusoé: As esquisitices do plano de Renan Santos
O Livro Amarelo foi claramente concebido para dialogar com um eleitor de direita descontente com o PT e com o “Jair domesticado”. O plano foi claramente concebido para dialogar com o eleitor do Bolsonaro raiz. Aquele que defendia ‘metralhar a petezada’, castração química de condenados por estupro e até pena de morte para condenados por homicídio.
A adoção do chamado Direito Penal do Inimigo, a criação de uma “Guerra ao Crime”, soa como ópera aos ouvidos do eleitor conservador. Ainda mais quando Renan defende o confisco ampliado de bens de integrantes de facções e o uso de estados de defesa em áreas dominadas pelo crime organizado.
O plano de governo de Renan Santos também tem a sua ‘escola sem partido’, quando defende o fim da autonomia universitária; estabelece o fim das cotas nas instituições públicas e reafirma a força das escolas cívico-militares – ao prever adotar esse modelo como transitório para as piores escolas do país.
Esse programa também defende enxugamento de pastas, tira autonomia do Ministério da Cultura e discute realocar recursos da Lei Rouanet para a melhoria de unidades prisionais no país.
Assim, o programa do Missão/Renan Santos parece que foi desenhado para encantar o eleitor bolsonarista raiz. Aquele que acreditou na ‘novidade’ Jair Bolsonaro em 2018.
Mas eleições não são apenas disputas de programas.
São, sobretudo, disputas de identidade. E é justamente aí que aparece o maior obstáculo para a candidatura do fundador do MBL. O eleitor bolsonarista não escolhe seus candidatos apenas porque concorda com determinadas propostas. Em muitos casos, seu voto está associado à identificação com Jair Bolsonaro, à percepção de pertencimento a um grupo político e à continuidade de uma liderança que ultrapassa o debate programático.
Isso ajuda a explicar por que, numa eventual disputa pelo mesmo espaço político, Flávio Bolsonaro parte de uma posição privilegiada. O sobrenome Bolsonaro funciona como um ativo eleitoral que nenhum documento programático consegue substituir sozinho.
Há ainda um elemento adicional.
O próprio Livro Amarelo dedica parte considerável de sua introdução a críticas duras ao bolsonarismo. Renan classifica o movimento como um “vácuo no lugar da direita”, acusa Jair Bolsonaro de ter feito um governo “medíocre” e afirma que o ex-presidente “traiu a direita” ao fortalecer o centrão e desmontar a Lava Jato.
Na política brasileira, programas de governo podem abrir portas. Mas Renan Santos, assim como outros candidatos da chamada “terceira via”, vão ter que romper esses vínculos identitários do eleitor bolsonarista com o capitão reformado. E, ao que parece, um programa de governo por si só não será o suficiente para isso.
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Comentários (3)
Edilson Oda
22.07.2026 18:42Estou decepcionado com os conteúdos do antagonista. Assinei o plano porque pensei que eram independentes. Mas, as colunas e a apresentação do programa estão cada vez mais bolsonaristas. Vocês estão caminhando pra um lado muito estranho. Será que se também se venderam?😔
Silvana
22.07.2026 10:29Se o candidato fosse o Kim, teria grandes chances de vencer
Tem umas esquisitices sim, e provavelmente não serão implantadas caso Renan ganhe as eleições . Mas prefiro arriscar em novas ideias do que ficar entre Lula e Flavio.