Fundada por ingleses em 1934: a cidade do interior paranaense que já respondeu por metade do café consumido no mundo
A riqueza do café acelerou o crescimento e mudou a paisagem da cidade
Uma companhia com sede em Londres comprou terras no meio da mata paranaense na década de 1920 e desenhou do zero uma cidade com traçado de cidade-jardim europeia. Londrina, no norte do Paraná, cresceu tão rápido sobre a terra roxa que, na década de 1950, chegou a responder por parte significativa da produção mundial de café. Hoje, com quase 600 mil habitantes, é o principal polo universitário do interior do Sul e mantém marcos históricos ligados aos ingleses que a batizaram.
Como uma missão britânica deu origem à cidade?
A história começou em 1924, quando a Missão Montagu, chefiada pelo escocês Lord Lovat, percorreu o norte do Paraná a convite do governo brasileiro. A comitiva ficou impressionada com a fertilidade da terra roxa, solo típico da região. O plano inicial era plantar algodão, que fracassou, e a alternativa foi a criação da Paraná Plantations Ltd., em Londres, e da subsidiária brasileira Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP).
O engenheiro Alexandre Razgulaeff fincou o primeiro marco em 21 de agosto de 1929, no local chamado Patrimônio Três Bocas. O nome da futura cidade foi sugerido por João Domingues Sampaio, um dos diretores da CTNP, como homenagem direta à capital britânica. Segundo o Plano de Desenvolvimento Institucional da UEL, a criação oficial do município veio pelo decreto estadual assinado pelo interventor Manoel Ribas em 3 de dezembro de 1934, com instalação em 10 de dezembro do mesmo ano, data em que se comemora o aniversário da cidade. O traçado urbanístico seguiu uma malha ortogonal em xadrez com ruas nos sentidos norte-sul e leste-oeste, projetada inicialmente para 30 mil habitantes.

Por que Londrina foi chamada de Capital Mundial do Café?
Entre as décadas de 1940 e 1960, o café transformou Londrina em uma das cidades que mais cresciam no Brasil. A região do norte paranaense chegou a responder por parte expressiva do café consumido no planeta, e Londrina virou o principal centro de compra, armazenamento e escoamento da produção. Foi ali que se firmou o segundo apelido da cidade, Capital Mundial do Café.
A riqueza dos grãos atraiu imigrantes de várias origens. Italianos, japoneses, alemães, árabes e portugueses se juntaram aos pioneiros britânicos e formaram uma cidade multicultural cuja marca continua visível na culinária, nas festas e na arquitetura. Em 2024, a Assembleia Legislativa do Paraná reconheceu o centenário da imigração britânica no norte paranaense, com Londrina como cidade-berço do processo.

O que aconteceu depois da Geada Negra de 1975?
Em julho de 1975, uma frente fria intensa devastou os cafezais do Paraná e encerrou o ciclo do café que sustentava a economia regional. A cidade, no entanto, já havia construído universidades, hospitais e um comércio forte o suficiente para se reinventar. Londrina migrou para serviços, agronegócio diversificado, tecnologia e educação, e manteve o crescimento populacional constante nas décadas seguintes.
Hoje o município tem Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de 0,778, classificação alta segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). A Universidade Estadual de Londrina (UEL), fundada em 1970, é considerada a 1ª estadual do Paraná e a 5ª do Brasil pelo QS World University Rankings 2025, e a 2ª do país em ações de sustentabilidade pelo Times Higher Education Impact Ranking. A instituição reúne cerca de 25 mil pessoas na comunidade acadêmica, com 53 cursos de graduação e 191 de pós-graduação. A Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) reforça o polo universitário.
A cidade figura entre as mais arborizadas do país, com 96,8% das ruas arborizadas, segundo levantamento amplamente citado sobre a rede viária urbana. Comparações com outras cidades bem-planejadas do Sul apareceram em diversos rankings, como já documentado em análises sobre a Pequena Londres do Paraná.

O que ver em Londrina além das universidades?
A cidade mistura patrimônio ferroviário, obras modernistas assinadas por grandes nomes da arquitetura brasileira e uma área verde central que virou marca urbana. Boa parte fica a poucos minutos do centro histórico.
- Lago Igapó: lago artificial com áreas verdes projetadas pelo paisagista Burle Marx, principal cartão-postal da cidade e ponto de encontro dos moradores.
- Museu Histórico Padre Carlos Weiss: instalado na antiga estação ferroviária, preserva o acervo da imigração e do ciclo do café.
- Catedral Metropolitana de Londrina: templo em formato de cone concebido durante a fase de expansão da cidade.
- Obras de Vilanova Artigas: seis projetos do arquiteto paulista espalhados pela cidade, entre eles o estádio do Londrina Esporte Clube.
- Bosque Municipal: reserva de Mata Atlântica em pleno centro urbano, com espécies nativas e passeio contemplativo.
- Calçadão: rua de pedestres que concentra comércio tradicional e continua sendo um dos endereços mais movimentados da cidade.
Na cozinha, a herança multicultural aparece em cada esquina. O yakisoba das cantinas japonesas, os quibes das confeitarias árabes, as massas artesanais das cantinas italianas e o churrasco de tradição gaúcha compartilham o mesmo bairro com facilidade.
Quem tem curiosidade sobre a cidade que cresceu com o café, vai curtir esse vídeo do canal Anderson Sap, com mais de 32 mil visualizações, que apresenta a história e os principais lugares de Londrina:
Que festivais movimentam Londrina ao longo do ano?
Dois grandes eventos definem o calendário. A ExpoLondrina, realizada em abril, é uma das maiores feiras agropecuárias da América Latina, com megashows e negócios milionários. O Festival Internacional de Londrina (FILO), em junho, é um dos principais festivais de teatro do continente e traz companhias de todo o mundo. A cidade também recebe congressos científicos e feiras universitárias durante todo o ano.
Como é o clima em Londrina?
Londrina fica em uma faixa de altitude que suaviza o calor típico do interior. O clima é subtropical úmido, com verões quentes e chuvosos e invernos secos e amenos, ocasionalmente com geadas leves em áreas rurais.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Londrina?
A cidade fica a 390 km de Curitiba pela BR-376 e a cerca de 530 km de São Paulo pela Rodovia Raposo Tavares (SP-270). O Aeroporto Governador José Richa recebe voos diretos de várias capitais brasileiras. A cidade também é atendida por ônibus intermunicipais e interestaduais, com terminal rodoviário central que opera durante todo o dia.
Conheça a Pequena Londres do Brasil
Londrina é um caso raro de cidade brasileira planejada por estrangeiros que virou símbolo nacional. Nasceu para plantar café, sobreviveu à geada que destruiu a lavoura e se transformou em polo universitário sem esquecer as origens.
Você precisa caminhar pela margem do Lago Igapó no fim da tarde e entender por que tantos brasileiros escolheram viver na cidade que os ingleses desenharam.
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