A cidade brasileira que nasceu rica, se tornou a mais rica das Américas, faliu da noite para o dia e hoje tenta se reinventar no meio da floresta
O auge econômico ficou para trás, mas novos caminhos começam a surgir
Poucas cidades do mundo subiram tão rápido e caíram tão fundo. Entre o fim do século XIX e o início do XX, Manaus teve luz elétrica, bondes e ópera europeia antes de boa parte das capitais do continente, sustentada por uma única árvore. Bastou um inglês embarcar em 1876 um transatlântico com 70 mil sementes para que o império desmoronasse em cerca de duas décadas.
Como uma árvore transformou a capital amazonense em Paris dos Trópicos?
Entre 1880 e 1912, a Amazônia foi a maior fornecedora mundial de látex, extraído da Hevea brasiliensis, a seringueira nativa da floresta. As indústrias europeias e norte-americanas dependiam do material para pneus, cabos, calçados e vedação, e o preço no mercado internacional disparou.
Manaus recebeu o dinheiro em volumes desproporcionais ao seu tamanho. A cidade ganhou energia elétrica, água encanada, rede de esgoto e bondes elétricos ainda no fim do século XIX, quando isso era raro no Brasil. Os barões da borracha importavam móveis, roupas e vinhos da Europa, e batizaram informalmente a capital de Paris dos Trópicos, apelido que resistiu ao tempo.

Por que o Teatro Amazonas custou uma fortuna em plena floresta?
Nenhuma obra resume melhor o delírio de grandeza daquele período. Segundo o Portal Cultura do Amazonas, o Teatro Amazonas foi inaugurado em 31 de dezembro de 1896, no Largo de São Sebastião, com a maior parte do material trazido do outro lado do Atlântico.
As paredes de aço vieram de Glasgow, na Escócia, os 198 lustres e o mármore das escadas e colunas saíram de Carrara, na Itália, e a cúpula colorida foi adquirida em Paris. Ela sozinha reúne 36 mil escamas de cerâmica esmaltada importadas da Alsácia, dispostas nas cores da bandeira brasileira. O teatro foi tombado como patrimônio nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1966, o primeiro monumento protegido de Manaus.

O contrabando de 70 mil sementes que derrubou um ciclo econômico
Enquanto os barões erguiam palácios, um plano silencioso corria em Santarém, no Pará. Em 1876, o inglês Henry Wickham reuniu cerca de 70 mil sementes de Hevea brasiliensis, acondicionou o carregamento em cestos de palha forrados com folhas de bananeira e embarcou tudo no transatlântico SS Amazonas com destino ao Royal Botanic Gardens, em Kew, na Inglaterra.
As sementes germinaram no jardim botânico e, depois, foram transplantadas para colônias britânicas na Ásia, sobretudo Malásia, Ceilão e Cingapura. Décadas depois, as plantações organizadas em fileiras produziam borracha com custo muito menor do que o extrativismo amazônico, que dependia de longas caminhadas na floresta. Por volta de 1912, o látex asiático inundou o mercado internacional, os preços despencaram e a economia manauara entrou em colapso em poucos anos.
Como a Zona Franca reergueu a cidade décadas depois?
Manaus passou meio século em relativa estagnação até que uma decisão federal mudou a rota. Em 28 de fevereiro de 1967, o Decreto-Lei nº 288 reformulou e institucionalizou a Zona Franca de Manaus (ZFM), com incentivos fiscais para atrair indústrias ao interior da Amazônia, conforme a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa).
O modelo consolidou o Polo Industrial de Manaus (PIM), hoje concentrado em eletroeletrônicos, informática e no setor de duas rodas. A cidade, que já foi símbolo de um único produto vendido para o exterior, passou a montar televisores, motocicletas e componentes de tecnologia no meio da maior floresta tropical do planeta. A troca de vocação não apagou a memória do látex, mas mostrou que a região era capaz de se sustentar com outros alicerces.
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Uma cidade que aprendeu a viver depois do próprio auge
A trajetória de Manaus é uma lição rara sobre riqueza súbita e ilusão de permanência. Em pouco mais de três décadas, a capital amazonense pulou da floresta para o topo do comércio mundial de látex, viveu como se aquela bonança fosse eterna e viu tudo desmoronar por causa de um carregamento clandestino de sementes.
Talvez seja essa a curiosidade mais dura da história: o que derrubou a cidade não foi uma guerra nem um desastre natural, mas a mesma planta que a havia feito rica, cultivada a milhares de quilômetros dali. Manaus segue de pé no meio da selva, mais atenta ao fato de que nenhum ciclo dura para sempre.
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