Cientistas reúnem 60 anos de medições feitas por aviões, navios, satélites e até trenós puxados por cães e revelam como seria a Antártida sem seus 27 milhões de km³ de gelo
Um novo retrato do continente congelado combina métodos de épocas diferentes e muda a posição de um dos pontos mais extremos do planeta.
A visão da Antártida sem gelo criada pelo Bedmap3 reuniu mais de seis décadas de medições para reconstruir o relevo sob aproximadamente 27 milhões de km³ de massa congelada. O resultado expõe montanhas, vales e um cânion sem nome coberto por 4.757 metros de gelo em Wilkes Land.
O que o Bedmap3 revelou sob o gelo da Antártida?
O projeto produziu o retrato mais detalhado da superfície rochosa escondida. Ao remover digitalmente o gelo, aparecem cadeias montanhosas, planícies, depressões e corredores capazes de direcionar as geleiras.
O British Antarctic Survey reposicionou o gelo mais espesso em um cânion sem nome, em Wilkes Land. A distância entre a superfície e o fundo rochoso alcança 4.757 metros.

Como 60 anos de medições foram transformados em um mapa?
As equipes combinaram levantamentos desde a década de 1950 com radares aerotransportados, medições sísmicas, navios, satélites e antigas expedições em trenós puxados por cães. Cada técnica cobriu partes diferentes do continente.
O estudo publicado na Scientific Data incorporou 84 novos levantamentos, 52 milhões de pontos adicionais e 1,9 milhão de quilômetros medidos. O conjunto reúne cerca de 82 milhões de pontos em uma grade de 500 metros.
Quais números mostram a dimensão do Bedmap3?
A compilação melhora áreas pouco conhecidas da Antártida Oriental, Península Antártica, costas ocidentais e Montanhas Transantárticas. A distância média entre uma célula calculada e uma medição caiu para 5,6 quilômetros.
Os totais mudaram pouco, mas a distribuição ganhou precisão. O modelo estima 27,17 milhões de km³ de gelo, incluindo plataformas flutuantes, e espessura média de 1.948 metros.
Os principais números ajudam a dimensionar a atualização científica.
Por que o cânion coberto por 4.757 metros chamou atenção?
Levantamentos anteriores colocavam o ponto mais espesso na Bacia de Astrolabe, na Terra Adélie. A reinterpretação transferiu o extremo para o cânion de Wilkes Land, nas coordenadas aproximadas 76,052° sul e 118,378° leste.
A espessura não coloca o fundo 4.757 metros abaixo do mar; ela mede a distância entre o topo e o leito. O dado ajuda a calcular pressão, fluxo e resposta ao aquecimento.
O relevo subterrâneo interfere de maneiras diferentes no deslocamento do gelo.
Para que os pesquisadores usarão o novo mapa?
O leito controla onde o gelo encontra resistência ou acelera. Modelos glaciológicos usam essas informações para simular geleiras, entrada de água oceânica e mudanças nas linhas de aterramento.
Bedmap3 também auxilia a história geológica e novas campanhas. Apesar do avanço, 93% das células de espessura na grade de 500 metros ainda são interpoladas entre medições diretas.
O conjunto apoia quatro frentes principais de investigação.
- Projetar o fluxo do gelo em diferentes cenários de temperatura.
- Identificar vales e bacias ligados à instabilidade das geleiras.
- Refinar estimativas sobre a contribuição antártica ao nível do mar.
- Planejar levantamentos em regiões com maior incerteza cartográfica.
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O mapa representa uma Antártida futura sem gelo?
Não. A imagem sem gelo reconstrói o leito atual combinando altitude, espessura, batimetria e rochas expostas. Ela não descreve automaticamente o continente após um eventual derretimento completo.
Sem o peso do gelo, a crosta tenderia a subir, enquanto erosão, sedimentos e nível oceânico alterariam o contorno. O Bedmap3 revela a base que governa o comportamento atual da camada congelada.
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