Saída de ministro da Defesa gera protestos na Ucrânia
Divergência entre pasta e comando militar leva à exoneração de Mykhailo Fedorov e mobiliza manifestantes em Kiev
Milhares de ucranianos ocuparam ruas de Kiev e de outras cidades do país nesta quinta-feira, 16, após o presidente Volodimir Zelenski anunciar a saída de Mykhailo Fedorov do Ministério da Defesa. A mudança faz parte de uma reforma ministerial que também substituiu o primeiro-ministro. O conflito com a Rússia se aproxima de completar quatro anos e meio.
Segundo a DW, a saída de Fedorov, de 35 anos, decorre de divergências com o general Oleksandr Syrskyi, comandante das Forças Armadas ucranianas. Zelenski atribuiu a decisão ao impasse entre os dois e afirmou, em entrevista coletiva: “Estou apenas mostrando que, se as partes não conseguirem resolver um problema, eu terei que resolvê-lo”.
O ministro deixou o cargo após apenas seis meses de gestão, período em que ficou conhecido por impulsionar a modernização tecnológica das Forças Armadas, sobretudo no uso de drones.
Em sua despedida, à imprensa, Fedorov responsabilizou Syrskyi por travar mudanças que considerava necessárias diante da transformação do conflito pelo avanço de novas tecnologias: “Nos deparamos com uma situação em que todas as iniciativas que propusemos começaram a ser bloqueadas”.
O ex-ministro declarou desconhecer um caminho para a vitória caso a estrutura de comando permaneça inalterada: “Sob estas condições, [com Syrskyi como comandante], eu pessoalmente não sei como a guerra pode ser vencida”.
Syrskyi não fez aparições públicas após o anúncio, mas publicou uma mensagem de agradecimento a Fedorov em rede social, na qual escreveu esperar que o ex-ministro continuasse a atuar em favor do país: “Desejo que ele continue na equipe ucraniana”.
Zelenski nomeia substituto interino
Para o comando interino da pasta, Zelenski indicou o major-general Yevhen Khmara, que desde janeiro exerce a chefia interina do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) e já comandou a unidade de operações especiais Alpha, vinculada ao mesmo órgão. O anúncio foi feito por meio do aplicativo Telegram.
O presidente ucraniano reconheceu tensões entre o ministério e as lideranças militares em diferentes escalões, descrevendo a situação como resultado de responsabilidades compartilhadas, e não apenas de conflitos pessoais.
Ao lado do premiê britânico Keir Starmer, em sua última visita ao exterior antes de deixar o governo do Reino Unido, Zelenski declarou: “Juntos vencemos e juntos somos responsáveis pelas coisas que causam confusão e reação pública”.
Manifestantes cobram mudanças no comando
Nas ruas, o público, majoritariamente jovem, reagiu à saída de Fedorov com protestos que pediam a saída do general Syrskyi, com frases como “Syrskyi, vá embora!” e “um Exército europeu para um país europeu!”. A crise também gerou repercussão dentro das próprias Forças Armadas: o coronel Pavlo Yelizarov, vice-comandante da Força Aérea, renunciou ao cargo em sinal de protesto.
Em publicação no Facebook, Yelizarov argumentou que a saída do ex-ministro enfraquecerá as defesas aéreas do país e poderá resultar em mais mortes provocadas por ataques russos: “Acredito que a demissão de Mykhailo Fedorov é um grande mal para a capacidade de defesa do país”.
Durante sua gestão, Fedorov também se dedicou ao combate à corrupção nas aquisições militares, tema sensível para a população ucraniana, que já protagonizou manifestações anteriores sobre o assunto. Ele mesmo reconheceu, ao deixar o cargo, não ter concluído a reestruturação do ministério segundo padrões da Otan, nem transferido integralmente as compras da pasta para licitações competitivas.
Analistas políticos e comentaristas russos alinhados ao Kremlin exploraram o episódio nas redes sociais. O analista Sergei Markov classificou as declarações do ex-ministro como uma “rebelião” contra Zelenski.
O ex-ministro havia anteriormente liderado a agenda de transformação digital do governo ucraniano, período no qual ganhou notoriedade por acelerar o desenvolvimento de tecnologia de drones e por lançar plataformas eletrônicas de serviços públicos. Ele também havia alertado para o número de deserções nas Forças Armadas, estimado por ele em cerca de 200 mil casos, além de aproximadamente 2 milhões de pessoas em situação de evasão do serviço militar.
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