A cidade do interior com o melhor saneamento do país e o que ela faz de diferente
Franca trata quase todo o esgoto que produz e lidera o ranking nacional, mas o dado mais revelador do estudo é outro: mais da metade das cem maiores cidades investe menos da metade do necessário.
Quando se fala em serviço público que funciona, o instinto manda olhar para as capitais. No saneamento, o instinto erra. A cidade que lidera o ranking nacional fica no interior de São Paulo, tem menos de 400 mil habitantes e trata quase todo o esgoto que produz. Enquanto isso, mais da metade das cem maiores cidades do país investe menos da metade do necessário. Aqui está o que Franca faz e o resto não.
Quem lidera o ranking?
O nome se repete no topo, e não é acaso de um ano.
Segundo o Ranking do Saneamento 2026, Franca, no interior paulista, ocupa novamente a primeira posição nacional, com 99,46% de cobertura de água e 98,91% de coleta e tratamento de esgoto. Ou seja: praticamente todo mundo tem água, e praticamente todo o esgoto é recolhido e tratado.
Que ranking é esse?
Vale conhecer a régua antes de discutir a nota.
É a 18ª edição do estudo do Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados, que analisa os 100 municípios mais populosos do país. Ele usa dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico, o SINISA, com ano-base 2024, publicados pelo Ministério das Cidades. As informações são autodeclaradas pelos prestadores de serviço.
O que ele mede?
São quatro dimensões, e a última costuma ser esquecida no debate.
O ranking avalia:
- Abastecimento de água: quanta gente é atendida.
- Coleta de esgoto: quanto do esgoto entra na rede.
- Tratamento de esgoto: quanto é efetivamente tratado.
- Investimentos em saneamento por habitante.
- Perdas de água na distribuição, o item que muitos ignoram.
Franca ganhou sozinha?
Aqui está um detalhe metodológico que quase toda cobertura deixou de fora.
Houve empate nas quatro primeiras colocações. As cidades no topo não apenas alcançaram níveis de atendimento considerados universalizados pelo Marco Legal, como registraram baixos índices de perdas, dentro dos parâmetros da Portaria nº 490/2021. Como empataram na pontuação, foi preciso um critério de desempate: a soma dos indicadores de atendimento de água, de esgoto e de esgoto tratado, que juntos somam até 300 pontos.
O que é a tal perda de água?
É o indicador que separa cidade boa de cidade que só parece boa.
Perda é a água tratada que sai da estação e nunca chega à torneira: vaza no cano, escapa em ligação clandestina, some na medição. A Portaria nº 490/2021 estabelece o limite de 25% para perdas na distribuição. Uma cidade pode ter cobertura alta e ainda assim desperdiçar um quarto do que trata. Franca pontua justamente por combinar as duas coisas.

Qual é o segredo, então?
Não há truque. Há continuidade, e é isso que o próprio estudo aponta.
O relatório do Trata Brasil é direto: o empate no topo mostra que há cidades cumprindo seu papel, com elevados níveis de atendimento e eficiência, o que reforça que a universalização é viável quando existe planejamento, investimento e gestão. A resposta é chata de propósito: fazer o básico, todo ano, sem interromper.
Por que isso é exceção?
Os números do resto do país explicam o tamanho do problema.
Mais da metade dos 100 municípios mais populosos investe menos de R$ 100 por habitante em saneamento. São 51 cidades abaixo desse patamar, menos da metade dos R$ 225 anuais que o Plano Nacional de Saneamento Básico considera ideal para universalizar até 2033. Apenas 17 municípios investem mais de R$ 200 por habitante, e só dez atingem nível de excelência.
Qual é a distância entre os extremos?
Aqui o Brasil aparece inteiro, e o contraste é brutal.
Nos 20 melhores municípios, a coleta de esgoto chega a mais de 98% da população. Nos 20 piores, não passa de 28%. No tratamento, os melhores alcançam quase 78%, enquanto os piores ficam pouco acima de 28%. Não é diferença de grau: é diferença de país. E a maioria das cidades com melhor desempenho está no Sudeste e no Sul.
Alguém está subindo?
Está, e o caso mais notável fica no Nordeste.
Teresina foi o município que mais avançou no ranking de 2026, com salto de 14 posições, impulsionado pela ampliação do atendimento de esgoto e pela redução das perdas. É a prova de que a posição não é destino geográfico: é resultado de decisão.
Por que saneamento importa tanto?
Porque ele é o investimento em infraestrutura com maior retorno em saúde.
Esgoto tratado significa menos internação, menos afastamento do trabalho, menos criança fora da escola. É uma obra que não aparece, ninguém fotografa e não rende inauguração, o que explica por que fica sempre para depois. Vale lembrar que infraestrutura invisível é justamente o que mais pesa quando falta, algo perceptível até na escala doméstica, como nos orçamentos de construção de uma casa de 100 m², em que hidráulica e elétrica somem por trás da parede.

E o prazo de 2033?
Ele existe, tem base legal e está apertado.
O Marco Legal do Saneamento, a Lei nº 14.026/2020, estabeleceu a universalização dos serviços até 2033. Com metade das maiores cidades investindo abaixo da metade do necessário, o alcance da meta depende de uma aceleração que ainda não aconteceu. Cidades que já se aproximam do topo, aliás, costumam aparecer bem em outros indicadores de infraestrutura urbana, porque saneamento raramente vem sozinho.
O que convém lembrar sobre o ranking
Franca lidera o Ranking do Saneamento 2026, com 99,46% de cobertura de água e 98,91% de coleta e tratamento de esgoto, num empate técnico entre as quatro primeiras colocadas. O ranking do Trata Brasil avalia as 100 maiores cidades com dados do SINISA de 2024, medindo água, esgoto, investimento e perdas. Mais da metade dos municípios investe menos de R$ 100 por habitante, contra os R$ 225 considerados ideais. Nos 20 melhores, a coleta passa de 98%; nos 20 piores, não chega a 28%.
Este conteúdo tem finalidade informativa e reflete o Ranking do Saneamento divulgado em março de 2026, com dados de 2024. Os indicadores são autodeclarados pelos prestadores e atualizados anualmente.
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