Capital Nacional da Cerâmica de Alta Temperatura por lei federal: o vilarejo paulista com 15 moradores por km² onde o barro queima a 1.400 °C
Os fornos de alta temperatura mudaram a história do artesanato local
Existe um tipo de silêncio que só aparece quando a cidade é grande e as pessoas são poucas. Cunha ocupa 1.407 km² no alto Vale do Paraíba, com 22 mil moradores espalhados por colinas e montanhas, o que dá menos de 16 pessoas por km². Nesse espaço largo cabem mais de 20 ateliês e um título que só existe porque o Congresso Nacional aprovou uma lei para criá-lo.
Por que Cunha virou terra de ceramistas?
O barro é mais antigo que a cidade. Os tamoios já moldavam utensílios na região antes da chegada dos portugueses, e depois vieram as paneleiras, mulheres que faziam potes e moringas em forno de barranco, cavado na própria terra. A virada aconteceu em 1975, quando um grupo se instalou no antigo matadouro municipal e ergueu ali o primeiro forno noborigama do Brasil.
O grupo era uma mistura improvável: o arquiteto português Alberto Cidraes, o casal de ceramistas japoneses Toshiyuki e Mieko Ukeseki e os irmãos mineiros Vicente e Antônio Cordeiro. Meio século depois, a cidade tem mais de 20 ateliês de cerâmica artística abertos à visitação, segundo a Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo.

O que acontece dentro de um forno a 1.400 °C?
O noborigama é construído em aclive, com câmaras de tijolo interligadas em degraus. A palavra vem do japonês: noboru é subir, kama é forno. A inclinação faz a estrutura funcionar como uma chaminé gigante, em que o ar quente sobe de câmara em câmara e leva a temperatura além dos 1.400 °C, com queimas que duram entre 30 e 40 horas ininterruptas.
O resultado ninguém controla. A cinza da lenha voa com o calor, gruda na argila e derrete, criando vidrados que nenhum esmalte de fábrica repete. Por isso, a abertura da fornada virou ritual público, com data marcada e gente esperando ao pé do forno. Um único forno chega a comportar até 2 mil peças, e nenhuma sai igual à outra.

O que significa ser capital nacional por lei?
O apelido de Cunha não nasceu de folder de turismo nem de campanha de marketing: está escrito na Lei 14.363, sancionada em 1º de junho de 2022 e publicada no Diário Oficial da União no dia seguinte, conforme a Câmara dos Deputados. A proposta veio de um projeto de 2017, da então deputada Pollyana Gama, e levou cinco anos até virar norma.
O argumento que sustentou o título não foi o forno japonês, e sim a continuidade. O parecer aprovado no Senado Federal, relatado pela senadora Eliziane Gama, registrou que a produção ceramista é parte indissociável da vida do município, presente desde a ocupação tamoia e mantida depois pelas paneleiras. Cunha é a única cidade brasileira com esse apelido oficial.

Como é a vida numa cidade a 1.100 metros de altitude?
Cunha é uma das doze cidades paulistas com o título oficial de Estância Climática, concedido pelo governo estadual em 1948, conforme a Prefeitura de Cunha. A altitude média de 1.100 metros explica o clima: temperado e seco, com o inverno chegando perto de zero e o verão que raramente passa dos 25 °C.
Essa mesma altitude define o que se planta e o que se come. A cidade é a maior produtora de pinhão de São Paulo, semente da araucária que só vinga em clima frio, e o Festival do Pinhão acontece todo abril na Praça da Matriz. Na edição de 2019, foram consumidas 10 toneladas da semente. Cogumelos, azeitonas, truta e cordeiro completam a mesa serrana.

O que fazer em Cunha em dois ou três dias?
Boa parte das atrações fica fora do centro, espalhada por estradas rurais e pela via que desce para Paraty. Vale reservar tempo: aqui a distância entre um ponto e outro é parte do passeio.
- Ateliê Suenaga & Jardineiro: fundado em 1985 por Kimiko Suenaga e Gilberto Jardineiro, mantém forno noborigama de quatro câmaras e abre as fornadas ao público.
- Casa do Artesão: funciona no antigo matadouro, berço do primeiro forno japonês do país, e reúne peças de vários ateliês num só endereço.
- Pedra da Macela: ponto mais alto do município, a 1.840 metros, com vista que alcança Paraty e a baía de Angra dos Reis.
- Parque Estadual da Serra do Mar, Núcleo Cunha: trilhas de 1,7 km a mais de 14 km entre cachoeiras e Mata Atlântica preservada.
- Fuscunha: encontro de fuscas que celebra uma curiosidade local, já que a cidade concentra a maior frota do modelo no Brasil.
Quem está planejando uma viagem para Cunha, vai curtir este vídeo do canal Vamos Fugir Blog, que mostra cachoeiras, restaurantes, hospedagens e passeios além do famoso Lavandário:
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Como é o clima em Cunha durante o ano?
O frio é o traço mais marcante, e a neblina que cobre a serra de manhã faz parte da rotina. O verão concentra a chuva, e o inverno seco é a alta temporada.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Uma cidade que aprendeu a esperar o fogo
Cunha reúne uma combinação rara a três horas da capital paulista: ar de montanha, espaço de sobra e um ofício que atravessou os tamoios, as paneleiras e os fornos japoneses sem se interromper. Quem trabalha com alta temperatura aprende cedo que não adianta apressar o fogo, e a cidade parece ter aprendido junto.
Você precisa subir a serra até Cunha numa manhã de neblina, esperar a abertura de uma fornada e levar para casa uma peça que ninguém mais terá igual.
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