Quando o condomínio descobre que não foi construído para ter ar-condicionado
A discussão não começa na fachada, mas dentro da cabine de entrada de energia do prédio
O retorno do (Super) El Niño e a perspectiva de novas ondas de calor colocam um problema na mesa de milhares de condomínios brasileiros: o morador quer instalar ar-condicionado, mas o edifício simplesmente não foi projetado para suportar essa nova realidade.
A primeira reação costuma ser emocional.
“Todo mundo está instalando.”
“É um direito do proprietário.”
“O condomínio não pode impedir.”
Mas a discussão não começa na fachada. Começa dentro da cabine de entrada de energia.
Energia
Prédios construídos há 20, 30 ou 40 anos foram dimensionados para um consumo completamente diferente do atual. Na época, poucas unidades possuíam ar-condicionado. Hoje existem apartamentos com três, quatro ou até seis equipamentos funcionando simultaneamente.
A conta não fecha.
A infraestrutura elétrica coletiva pode simplesmente não suportar a nova carga.
E isso muda completamente o debate.
A pergunta não é mais: “O morador pode instalar?”
A pergunta correta passa a ser: “O prédio consegue alimentar todos os moradores se todos resolverem instalar?”
Essa diferença parece pequena, mas juridicamente e tecnicamente ela muda tudo.
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Risco
Não adianta aprovar uma instalação individual que coloque em risco o sistema coletivo.
Sobrecarga elétrica significa aquecimento de cabos, atuação frequente de proteções, quedas de energia, redução da vida útil dos equipamentos e, em situações extremas, risco de incêndio.
Por isso, muitos síndicos acabam sendo injustamente acusados de “proibir o conforto”.
Na realidade, muitas vezes eles estão impedindo um colapso da infraestrutura.
Isso não significa dizer “não” ao ar-condicionado.
Significa fazer o caminho correto.
Primeiro passo
O primeiro passo é contratar um estudo elétrico para identificar a capacidade instalada do condomínio, a demanda atual, a demanda futura e quais investimentos seriam necessários para suportar uma ampliação da carga.
Só depois desse diagnóstico faz sentido discutir assembleia, critérios de aprovação, padronização das condensadoras, impacto na fachada e eventuais obras.
O condomínio que ignora essa etapa assume um risco enorme: permitir instalações individuais hoje e descobrir amanhã que precisará trocar transformadores, barramentos, prumadas ou até a entrada de energia inteira.
É muito mais caro corrigir depois.
O calor extremo não é mais uma exceção. Ele tende a se tornar parte da rotina em diversas regiões do país, aumentando naturalmente a procura por sistemas de climatização.
Os condomínios que sobreviverão melhor aos próximos anos não serão os que simplesmente autorizarem ou proibirem o ar-condicionado.
Serão aqueles que planejarem sua infraestrutura antes que o calor obrigue todos a tomar decisões às pressas.
Porque o verdadeiro problema nunca foi o aparelho.
Sempre foi a rede elétrica que ninguém lembrava até ela chegar ao limite.
Por Rafael Bernardes, especialista em gestão condominial e fundador do Sindicolab
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