Gustavo Nogy na Crusoé: O blá-blá-blá da eliminação
Tudo virou discurso: a legitimidade da camiseta, a inautenticidade dos slogans, a posição ideológica do time e os viciosos anúncios das bets
Num artigo de 1969, “A falação esportiva”, o semiólogo italiano Umberto Eco percebeu que as grandes competições na era da mass media – ele então comentava a Olimpíada e depois comentaria a Copa da Argentina – consistiam no discurso sobre o esporte, mais do que no próprio esporte: “O esporte como prática não mais existe (…) Existe apenas a falação sobre a falação do esporte”.
Muito antes da onipresença das redes e mídias sociais, os debates no rádio e na tevê se transformavam nos debates sobre os debates sobre a competição, “na falação sobre a falação da imprensa esportiva” que circundavam o esporte.
Assim, o jogo se reduziria a um pretexto para o que se movimentava em torno dele: números, preços, previsões, polêmicas, fofocas, certezas, reputações.
Mais do que jogado e assistido, o esporte é comentado à exaustão, como se o próprio ato de comentar bastasse a si mesmo, a despeito daquilo que é efetivamente disputado nas quadras, nos campos, nas pistas ou nas piscinas.
Me lembrei desse texto, publicado no livro Viagem na irrealidade cotidiana, minutos depois de assistir à pantomima de Neymar na marca do pênalti.
Como se tivesse mais dez, quinze ou trinta minutos – e não dez, quinze ou trinta segundos – para tentar o improvável e, àquela altura, imerecido empate, Neymar desafia o goleiro Nyland para um duelo muitíssimo pessoal – porque, em se tratando de Neymar, tudo é pessoal. A seleção é um pretexto.
O agora dublê de gênio cobra e, à sua maneira, desloca com facilidade o adversário. Fez seu ato.
Empanturrado de si, hipnotizado pela imagem refletiva no telão, debocha do descendente de viking que, por sua vez, civilizado, apenas sorri. Ele sabe que Neymar venceu a batalha, mas que seria uma vitória de Pirro: a guerra já estava ganha pelos combatentes de Erling Haaland.
No inacreditável diálogo travado entre o atacante e o goleiro, o discurso se impôs à disputa. Poucos segundos mais…
Siga a leitura em Crusoé. Assine e apoie o jornalismo independente.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)