Fracasso na China: Forest City, a megacidade de US$ 100 bilhões projetada para 700 mil moradores que se tornou uma cidade fantasma pouco tempo após sair do papel
Entenda como Forest City passou de promessa urbana perto de Singapura a símbolo de cidade fantasma, com menos de 10 mil moradores e pouco comércio
Forest City nasceu como um dos projetos imobiliários mais ambiciosos da Ásia. Construída sobre ilhas artificiais no estado de Johor, na Malásia, a cidade prometia torres residenciais, áreas comerciais, hotéis, escolas e infraestrutura para cerca de 700 mil moradores. O plano de US$ 100 bilhões, porém, avançou muito menos do que o previsto e deixou avenidas silenciosas, condomínios com baixa ocupação e uma paisagem que passou a ser chamada de cidade fantasma.
Como Forest City foi planejada para 700 mil moradores?
O empreendimento começou a ganhar forma na década passada sob a liderança da incorporadora chinesa Country Garden, em parceria com investidores locais. O projeto previa quatro ilhas recuperadas do mar, com bairros verticais, escritórios, centros de lazer e jardins integrados aos edifícios. A proximidade com Singapura era apresentada como uma vantagem para quem desejava morar ou manter um segundo imóvel perto de um dos maiores centros financeiros da região.
A escala chamava atenção. O valor de US$ 100 bilhões representava a projeção total para a construção da metrópole, não a quantia já aplicada. Em 2023, a Country Garden informou que havia investido cerca de 20 bilhões de ringgits, equivalentes então a US$ 4,3 bilhões. Naquele momento, menos de 10 mil pessoas viviam no empreendimento, aproximadamente 1% da população planejada.
Por que tantos apartamentos ficaram vazios?
A estratégia comercial dependia fortemente de compradores chineses. Muitos adquiriam unidades como investimento, sem intenção imediata de morar na Malásia. Quando a China restringiu a saída de capital para compras no exterior, a procura perdeu força. Mudanças políticas malaias, dúvidas sobre vistos e a pandemia também atingiram as vendas. O problema foi ampliado por fatores como:
- preços elevados para boa parte da população local;
- condomínios planejados para compradores estrangeiros;
- comércio reduzido pela falta de moradores permanentes;
- obras interrompidas ou adiadas em áreas do projeto;
- dificuldades financeiras enfrentadas pela Country Garden.
Assista a um vídeo do canal Cata e Davi para mais detalhes:
O que a proximidade com Singapura prometia ao projeto?
Forest City foi construída no Estreito de Johor, diante de Singapura. A localização permitia vender a ideia de uma moradia espaçosa e mais barata próxima à cidade-Estado, onde terrenos e imóveis têm preços elevados. Na apresentação comercial, o morador teria acesso a praias, campo de golfe, hotelaria e condomínios modernos sem se afastar do corredor econômico regional.
Na prática, estar perto no mapa não significa integração simples. Deslocamentos internacionais exigem passagem pela imigração, transporte adequado e tempo nas fronteiras. A falta de empregos e serviços dentro da própria cidade reduziu o interesse de famílias que precisavam de uma rotina urbana completa. Sem população suficiente, lojas, restaurantes e equipamentos comunitários também tiveram dificuldade para se manter.

Quais decisões transformaram o megaprojeto em cidade fantasma?
O esvaziamento não resultou de uma única falha. O empreendimento reuniu riscos de mercado, planejamento urbano e financiamento em um projeto dependente de crescimento contínuo. A construção acelerada de torres ocorreu antes da consolidação de uma comunidade com empregos, transporte e demanda residencial estável. Entre os pontos mais citados estão:
Fatores que podem ameaçar a viabilidade de uma cidade planejada
Grandes empreendimentos urbanos dependem de procura real, financiamento sustentável, ocupação gradual e capacidade de reduzir impactos sociais e ambientais.
-
01
Dependência excessiva de investidores de um único país
A concentração do capital em um só mercado deixa o projeto mais vulnerável a crises econômicas, mudanças políticas e restrições à saída de recursos.
-
02
Oferta de imóveis acima da procura residencial real
Quando são construídas mais unidades do que o mercado consegue absorver, aumentam os riscos de vacância, queda nos preços e paralisação de novas etapas.
-
03
Infraestrutura antecipada antes da chegada dos moradores
Ruas, serviços e equipamentos urbanos podem gerar altos custos de manutenção mesmo quando a ocupação ainda é insuficiente para sustentar a operação.
-
04
Impactos ambientais da recuperação de terras costeiras
A alteração da linha litorânea pode afetar ecossistemas marinhos, circulação da água, áreas de pesca e a estabilidade ambiental da região.
-
05
Endividamento da incorporadora responsável pelo empreendimento
Dívidas elevadas podem reduzir o ritmo das obras, limitar novos investimentos e aumentar a incerteza sobre a entrega das etapas prometidas.
Forest City ainda pode deixar de ser uma cidade fantasma?
O governo da Malásia tenta reposicionar a área como uma Zona Financeira Especial. Em 2024, foram anunciados incentivos tributários para atrair empresas, instituições financeiras e profissionais de alta renda. A proposta busca substituir parte da dependência das vendas de apartamentos por atividades econômicas capazes de gerar empregos e circulação diária. A localização próxima a Singapura continua sendo um ativo importante, principalmente com a ampliação da cooperação econômica em Johor.
A recuperação, contudo, depende de mais do que descontos fiscais. Forest City precisa aumentar a ocupação residencial, conectar moradia a trabalho e manter serviços básicos funcionando durante todo o ano. O caso mostra como torres, avenidas e jardins não formam uma cidade por conta própria. Sem moradores, comércio, mobilidade e demanda compatível com o projeto, até um empreendimento de US$ 100 bilhões pode permanecer visualmente pronto, mas socialmente vazio.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)