Uma lei federal transformou essa cidade gaúcha na Capital Nacional das Etnias e são mais de 30 povos convivendo em 380 km² onde nasceu o capitão do Tetra da Seleção Brasileira
A convivência entre diferentes culturas virou a marca mais forte da cidade
No fim do século XIX, milhares de imigrantes desembarcaram no noroeste gaúcho atrás de terra barata e liberdade. Vieram alemães, italianos, poloneses, letões, russos, árabes, japoneses, ucranianos. Nenhum grupo virou maioria absoluta. O resultado dessa aritmética estranha é Ijuí, a 402 km de Porto Alegre, onde a diversidade deixou de ser detalhe e virou identidade oficial, reconhecida por lei e onde nasceu o ex-jogador e treinador Dunga.
Como uma cidade do interior recebeu um título nacional por decreto
A Lei nº 14.280, de 28 de dezembro de 2021, tem apenas dois artigos. O primeiro confere a Ijuí o título de Capital Nacional das Etnias.
O projeto foi aprovado pelo Plenário do Senado Federal em votação simbólica, sem uma única emenda. No parecer, o relator apontou a “exuberância multicultural” da cidade e destacou a União das Etnias de Ijuí (UETI), entidade que reúne cerca de 5 mil voluntários e organiza o movimento étnico desde 1987. O nome original do lugar explica parte da história: Ijuhy, fundada em 19 de outubro de 1890, significa em guarani “rio das águas divinas”.

O que é a festa que reúne 13 etnias em casas próprias
A Festa Nacional das Culturas Diversificadas (Fenadi) nasceu em 1987 e, junto com a feira de negócios Expoijuí, se tornou o maior evento do calendário local. Cada etnia mantém uma casa própria no Parque de Exposições Wanderley Agostinho Burmann, com salão de dança e cozinha típica, o que permite jantar em três culturas diferentes sem sair do mesmo pavilhão.
Hoje o evento se chama Expofest Ijuí e ocupa dez dias de outubro. O parque fica no km 454 da BR-285, a 4 km do centro, e tem 15 hectares, um dos maiores do estado, segundo a Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul. Ijuí também recebeu da Organização Internacional de Folclore e Arte Popular (IOV) uma moção como Capital Internacional das Etnias das Américas.
Trinta mil peças e um acervo fotográfico raro no Brasil
O Museu Antropológico Diretor Pestana (MADP) guarda cerca de 30 mil objetos divididos em antropologia, arqueologia, numismática e filatelia. Criado em 25 de maio de 1961, funciona em sede própria de 1.618 m² com ambientes climatizados.
O detalhe pouco conhecido está no arquivo de imagem: além de aproximadamente 300 mil fotografias, o museu preserva cerca de 14 mil negativos de vidro, considerado um dos maiores conjuntos do gênero no país. É placa de vidro sensibilizada, técnica anterior ao filme flexível, que registrou o cotidiano rural do noroeste gaúcho no início do século XX. O museu está cadastrado no Conselho Nacional de Arquivos (Conarq).

O que fazer na Terra das Culturas Diversificadas
A cidade não é destino turístico consolidado, e talvez esteja aí o interesse. Os atrativos se espalham entre o centro histórico e a zona rural, quase todos a menos de 15 km.
- Museu Antropológico Diretor Pestana: acervo pré-missioneiro, arqueologia e o arquivo de negativos de vidro. Fica na Rua Germano Gressler, bairro São Geraldo.
- Cascata da Usina Velha: queda no rio Potiribu, junto a uma das mais antigas hidrelétricas da região, desativada em 2017 e aberta à visitação.
- Parque da Fonte Ijuí: a 12 km do centro, com camping, campos de futebol e a engarrafadora de água mineral que rendeu à cidade o apelido de Terra das Fontes.
- Igreja Evangélica: inaugurada em 1914, conhecida como Igreja do Relógio, marco da imigração alemã.
- CTG Clube Farroupilha: precursor do Movimento Tradicionalista Gaúcho, incluído no roteiro guiado da Prefeitura de Ijuí.
- Parque da Pedreira: antiga área degradada de lago, revitalizada e reaberta em dezembro de 2021.
Quem tem vontade de explorar a cultura e os pontos turísticos do noroeste gaúcho, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal ANDER PELO MUNDO, que conta com mais de 3.700 visualizações, onde o apresentador mostra a história da imigração, a Praia da República e os principais marcos de Ijuí:
Quando ir e como chegar ao noroeste gaúcho?
Outubro concentra o calendário, com a Expofest e o aniversário da cidade. O inverno é rigoroso para padrões brasileiros, com mínimas de um dígito e nevoeiro ao amanhecer.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
São 402 km de Porto Alegre pela BR-386 e BR-285, cerca de cinco horas de carro. A cidade fica em um entroncamento rodoviário do noroeste e recebe ônibus interestaduais. Os aeroportos mais próximos com voos regulares ficam em Santo Ângelo e Santa Rosa.
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Conheça a cidade onde ninguém é maioria
Ijuí construiu sua identidade sobre a soma de gente que chegou de lugares distantes e resolveu conviver. É raro encontrar um município que transformou isso em política pública, festa anual e depois em lei federal.
Você precisa passar uma semana de outubro em Ijuí e jantar em três casas de etnias diferentes na mesma noite para entender o que esse título significa.
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