Estados Unidos, Holanda e Austrália começam a proibir a instalação de grama sintética nos quintais das casas e exigem coberturas vivas: o que muda no calor do bairro
EUA, Holanda e Austrália estão proibindo a grama sintética nos quintais das casas
A grama sintética foi vendida durante anos como solução prática e sustentável, mas pesquisadores e prefeituras em três países chegaram a conclusões parecidas: o tapete de plástico aquece mais do que asfalto, impermeabiliza o solo e libera microplásticos no meio ambiente. Por isso, cidades nos Estados Unidos, conselhos municipais na Austrália e a liga de futebol da Holanda estão restringindo ou proibindo o material. O motivo central não é estética, é saúde pública e clima urbano.
O que é exatamente o problema com a grama sintética?
Em dias de temperatura ao redor de 38°C, a superfície da grama sintética pode ultrapassar 60°C, segundo medições da pesquisadora Janet Hartin, especialista em horticultura da Universidade da Califórnia (UC ANR). Isso é mais quente do que o asfalto nas mesmas condições. Kelly Turner, diretora associada do UCLA Luskin Center for Innovation, classifica o material como uma das superfícies que mais retêm e irradiam calor em áreas residenciais, agravando o efeito de ilha de calor urbana nos bairros.
Além do calor, a degradação das fibras de polietileno e dos grânulos de borracha do preenchimento libera microplásticos, que são partículas menores que 5 milímetros carregadas pela chuva e pelo vento para rios e oceanos. Um monitoramento de 7 anos conduzido pelo Australian Microplastic Assessment Project (AUSMAP) encontrou fragmentos de grama sintética em grandes quantidades nas águas costeiras de Sydney. No porto da cidade, só entre janeiro e agosto de 2025, foram recolhidas mais de 19.000 peças de grama sintética por apenas 20 estações de monitoramento.

O que cada país está fazendo contra a grama plástica?
Na Califórnia, a lei estadual SB 676, sancionada em 2023, retirou a grama sintética da definição legal de paisagismo tolerante à seca, devolvendo às prefeituras o poder de proibi-la em áreas residenciais. A cidade de Millbrae, na região da Baía de São Francisco, já proibiu novas instalações desde 1º de janeiro de 2024 e exige que moradores substituam o material quando ele mostrar sinais de desgaste. San Marino, em Los Angeles, adotou postura semelhante.
Na Holanda, o movimento começou no futebol profissional. A liga Eredivisie votou unanimemente pela eliminação de gramados sintéticos a partir da temporada 2025/2026, com todos os clubes migrando para grama natural ou híbrida. O país prevê eliminar os campos sintéticos ao nível nacional até 2030, citando riscos do granulado de borracha para saúde e solo. Na Austrália, os conselhos de Fremantle, Subiaco e Victoria Park, em Perth, já proibiram a grama sintética nas calçadas e áreas públicas. O conselho de Queanbeyan-Palerang, em Nova Gales do Sul, propôs em 2025 vedar a instalação em novas casas e calçadas. Nenhuma jurisdição australiana ainda adotou proibição total, mas o debate avança em vários estados.
Quais alternativas as prefeituras estão exigindo no lugar?
A palavra-chave nos regulamentos é cobertura viva: plantas rasteiras, gramados nativos ou qualquer vegetação que mantenha o solo permeável e ativo. Na Califórnia, a lei estadual AB 1572, em vigor desde 2024, proíbe o uso de água potável para irrigar gramados decorativos sem função prática, incentivando a substituição por plantas nativas tolerantes à seca. A ideia não é gastar água com grama, mas com vegetação útil que refresque o solo.
Veja os principais tipos de substituição aceitos nos regulamentos estudados:
- Gramados de espécies nativas de baixa manutenção e consumo de água reduzido
- Coberturas rasteiras como trevo, dichondra ou outras plantas permeáveis
- Jardins de chuva com plantas que absorvem a água das calçadas
- Cobertura morta orgânica (mulch), que protege o solo e reduz a evaporação
- Pavimentos permeáveis combinados com vegetação em espaços menores
Dr. Paul Cheung, pesquisador de aquecimento urbano da Universidade de Melbourne, resume bem a lógica por trás das restrições: plantas e vegetação no jardim não são apenas estética, são infraestrutura climática que regula a temperatura do bairro e da própria casa.
| País / Região | Medida adotada | Situação |
|---|---|---|
| Califórnia, EUASB 676 e cidades como Millbrae | Lei estadual devolve poder às prefeituras para proibir; Millbrae vedou novas instalações desde 2024 | Em vigor |
| HolandaEredivisie e política nacional | Liga profissional baniu grama sintética desde 2025/26; eliminação nacional prevista até 2030 | Em transição |
| AustráliaVários conselhos municipais | Fremantle, Subiaco e Victoria Park proibiram em áreas públicas; debate avança em NSW e Victoria | Em expansão |
O que isso significa para quem já tem grama sintética no quintal?
Em praticamente todas as regulamentações analisadas, quem já tem o material instalado não é obrigado a remover imediatamente. A lógica adotada é de transição gradual: as proibições valem para novas instalações, e a remoção passa a ser exigida quando o material apresenta desgaste visível ou quando o morador decide substituir o quintal. Em Millbrae, por exemplo, o regulamento exige que a grama sintética degradada seja trocada por vegetação natural, mas não força a retirada de instalações em bom estado.
A tendência, porém, é clara: o mercado de grama sintética residencial deve enfrentar regulações crescentes à medida que mais cidades mensuram o impacto climático de superfícies plásticas nos bairros. Quem pensa em instalar agora vale conferir a legislação local, pois o que é permitido hoje pode ser proibido na próxima reforma do quintal.
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