Mais iguais que os outros
A reforma da Previdência é um desafio a ser enfrentado por todos os brasileiros. Mas alguns entendem que merecem tratamento especial.
De cada quatro manifestantes que foram à Paulista no 26 de maio, três disseram sair de casa em apoio às reformas do governo Bolsonaro. A marcha serviu para Paulo Guedes fortalecer a convicção de que a reforma da Previdência será aprovada.
Estamos confiantes que o Congresso vai aprovar a reforma. Acho que as manifestações simplesmente confirmam a ideia de que o povo quer mudanças. Paulo GuedesDias depois, nove entidades, entre elas a CNA e a CNI, assinaram uma carta aberta oferecendo apoio total à principal reforma.
Reconhecemos a coragem e o patriotismo do senhor presidente em fazer da reforma da Previdência a prioridade inicial de seu governo. Confiamos no apoio e no bom senso do Congresso Nacional, que atento ao senso de urgência da situação, certamente irá aprovar uma Previdência justa e sustentável.É uma pauta que impacta a vida dessa e das futuras gerações. Mas, como alertou Diego Amorim durante todo o dia de ontem, há um “lobby pesado” nos corredores do Congresso para que categorias influentes sejam enquadradas no regime de aposentadoria especial. – Especiais Fred Costa, deputado pelo Patriota, quer aposentadoria especial para os profissionais de enfermagem. Marcelo Freitas, do PSL, quer que agentes socioeducativos se enquadrem no regime. Charles Evangelista, do mesmo PSL, trabalha para que os oficiais de justiça alcancem a mesma graça. Mas um detalhe desta última emenda não escapou à apuração atenta de Amorim:
Sabem qual a profissão do deputado antes de assumir o cargo na Câmara? Oficial de Justiça. Diego Amorim, em O AntagonistaNenhuma bancada, contudo, está mais interessada em aposentadorias especiais do que a ligada à segurança pública. – Mais que especiais Foram apresentadas duas emendas que oferecem aposentadoria especial aos agentes municipais de segurança pública, sendo uma por Carlos Sampaio, do PSDB, e outra por João Roma, do PRB. João Campos, também do PRB, trabalha para que as Polícias Legislativas Estaduais obtenham o benefício. Sanderson, do PSL, quer que técnicos, analistas e auxiliares integrem o mesmo regime dos policiais. Luis Miranda, do DEM, acredita que agentes de trânsito merecem o privilégio por “uma questão de Justiça“. Alan Rick, do DEM, tenta emendar o texto para que a Abin seja igualmente contemplada. Um caso – ou mais – merece destaque. Porque trechos das emendas de quatro deputados de partidos distintos se repetem.
Nas emendas de Celina Leão (PP), Nicoletti (PSL), Alan Rick (DEM) e Hugo Leal (PSD), por exemplo, que tratam da aposentadoria de agentes de segurança, há trechos na justificativa que são iguaizinhos — leia aqui e aqui e aqui e aqui. Diego Amorim, em O Antagonista– Nem tanto, nem tão pouco Os assinantes de O Antagonista+ estão atentos às tentativas de se desidratar a reforma da Previdência. No geral, concordam que a lei precisa tratar todos como iguais. Mas há quem entenda as demandas das categorias.
Sob o discurso de igualdade para todos, somos um povo que busca desesperadamente reafirmar as diferenças, principalmente quando o assunto são os benefícios. Mudem apenas os iguais. Alberto Drummond
Não é abrindo exceções que vamos fazer justiça, jamais se conseguirá fazer justiça com todas categorias. Uma regra igual, linear para todos será mais justa, do que as exceções dadas por força de lobby. Paulo Camara
Acho correto. Estes profissionais cuidam de nós quando precisamos. Bolsonaro estará sendo cruel se ficar contra isto. Renato Vilhena– Todos os animais são iguais, mas… A busca pela aposentadoria especial, de uma forma geral, mira a redução da idade mínima e um tempo de contribuição menor. Até a tarde de ontem, foram protocoladas 71 emendas à reforma. Em A Revolução dos Bichos, George Orwell apresenta a fábula da fazenda em que, após a expulsão dos humanos, os porcos concordam que “todos os animais são iguais“. Contudo, após negociações com a humanidade, o texto é reformado, e o novo mandamento define que “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros“. Lançado em 1945, o romance satirizava a União Soviética. Mas serve para alfinetar os lobistas que atuam nos corredores da Câmara Federal em 2019. Afinal, vivem em um país no qual nem a Suprema Corte abre mão de usar a estrutura pública para se fartar de lagostas.
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