O ritual amazônico que povos originários tratam como medicina e o mercado global tenta transformar em produto
Para o povo Cofán, a bebida sagrada só existe como medicina quando permanece ligada à floresta viva, ao território preservado e à cultura ancestral.
Na fronteira entre o Equador e a Colômbia, em plena Floresta Amazônica, o povo Cofán pratica há séculos um ritual que a ciência moderna ainda tenta compreender. A Ayahuasca, conhecida entre os Cofán como Yahe, não é uma droga recreativa nem uma moda de retiro espiritual. É, na visão desses povos originários, a medicina mais poderosa que a floresta produz, e talvez a mais mal compreendida do mundo.
O que é a Ayahuasca e de onde ela vem?
A Ayahuasca não é uma planta única, mas a combinação de duas: o cipó Yahe e as folhas de Chakruna. A sinergia entre os dois ingredientes é o que torna a bebida possível. Como explica Alex, filho do líder espiritual Cofán: o cipó “abre a porta” e a folha “acende a luz”.
A ciência confirma o mecanismo. A Chakruna contém DMT (Dimetiltriptamina), conhecida como a “molécula de Deus” e produzida naturalmente pelo próprio corpo humano em momentos extremos como o nascimento e a morte. Já o cipó funciona como inibidor da enzima IMAO, impedindo que o organismo neutralize o DMT antes que ele aja. Sem um, o outro não funciona.

Como os Cofán usam a Ayahuasca como medicina?
Para os Cofán, a bebida cumpre funções que vão muito além do individual. Ela é usada para buscar equilíbrio territorial, orientar decisões coletivas e conectar o xamã ao espírito de animais totêmicos como o Jaguar e a Anaconda. A cerimônia é uma ferramenta de governança espiritual, não de entretenimento.
A preparação para o ritual exige rigor. Antes de consumir a bebida, o participante cumpre um protocolo de purificação:
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O que a ciência já descobriu sobre a bebida?
A experiência, segundo relatos, não chega como uma explosão. Surge como uma “maré que sobe lentamente”: o corpo passa por uma purificação física, e a mente é confrontada com memórias e verdades sem o filtro do ego. Para os Cofán, esse processo é o núcleo da medicina, não um efeito colateral.
Pesquisadores de diversas universidades investigam os efeitos terapêuticos da Ayahuasca em quadros de depressão resistente, transtorno de estresse pós-traumático e dependência química. Os estudos ainda são iniciais, mas os resultados têm chamado atenção de instituições como o Imperial College London e a Universidade de São Paulo, que conduziram ensaios clínicos com resultados promissores.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube projeto felicidade falando sobre o Ayahuasca:
Por que a mercantilização da Ayahuasca preocupa os povos originários?
O xamã Alex faz uma crítica direta ao crescimento do turismo psicodélico e à criação de cursos pagos para “formação de xamãs” em países como os Estados Unidos. Para os Cofán, retirar a planta do seu contexto sagrado e prepará-la fora da floresta intacta a transforma de medicina em alucinógeno perigoso, capaz de desarmonizar a mente em vez de curá-la.
A lógica tem base no próprio ecossistema. Segundo os Cofán, o cipó absorve a energia do ambiente onde cresce. Cultivado em áreas devastadas pelo petróleo ou pela mineração, as visões que ele produz tornam-se “escuras, cheias de morte e repulsa”. A potência medicinal da planta depende diretamente da saúde da floresta ao redor.
O que está em risco se a Amazônia não for protegida?
O alerta de Alex resume a questão com precisão: “Se o território termina, a cultura também termina.” O avanço das multinacionais petroleiras e o desmatamento por mineração já destruíram partes da floresta que os Cofán habitam. Comunidades vizinhas, seduzidas pelo dinheiro, abandonaram línguas e costumes. O resultado, na visão dos Cofán, é uma forma silenciosa de morte cultural.
E quando um ancião Cofán foi perguntado sobre o que é necessário para ser feliz, a resposta foi direta: comida e um território saudável. Sem floresta viva e água limpa, não há medicina, não há cultura, não há felicidade. A Ayahuasca mais poderosa do mundo nasce de uma floresta intacta, e protegê-la é, talvez, o ato mais urgente que o mundo pode tomar agora.
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