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Empresas devem tratar El Niño como variável de negócio

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Carlos Graieb
6 minutos de leitura 24.06.2026 16:08 comentários
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Empresas devem tratar El Niño como variável de negócio

Probabilidade de ocorrência do fenômeno climático supera 95% e deve entrar na equação de risco de todos os gestores

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Carlos Graieb
6 minutos de leitura 24.06.2026 16:08 comentários 0
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Empresas devem tratar El Niño como variável de negócio
Foto: Reprodução
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INPE, INMET, Funceme e Censipam atualizaram a nota técnica que haviam publicado em abril e elevaram o alerta para a formação de um episódio de El Niño no segundo semestre de 2026. Segundo os órgãos, a probabilidade de ocorrência do fenômeno supera 95%, com possibilidade de persistência até o início de 2027. O documento alerta para o aumento do risco de eventos climáticos extremos e seus impactos sobre abastecimento de água, segurança alimentar, geração de energia, mobilidade e atividades produtivas.

A previsão acelerou decisões de governos, operadores de infraestrutura e concessionárias de serviços públicos – e precisa entrar nas equações de risco de todos os tipos de empresas.

Por que isso importa

O El Niño costuma produzir um Brasil dividido climaticamente.

No Sul, o padrão histórico é de aumento das chuvas, enchentes e problemas de infraestrutura. No Norte e em partes do Nordeste, predominam estiagens, redução do nível dos rios e riscos para abastecimento, logística e geração hidrelétrica. Centro-Oeste e Sudeste podem enfrentar ondas de calor mais intensas e períodos de seca.

Para o setor privado, isso significa risco em múltiplas cadeias de abastecimento em serviços.

Na infraestrutura, cresce a preocupação com enchentes, deslizamentos, interrupções de rodovias, ferrovias e danos a ativos críticos. Na logística, a possibilidade de estiagem na Amazônia pode afetar a navegação fluvial, enquanto chuvas intensas elevam o risco de interrupções em corredores estratégicos do Sul.

Na energia, o alerta já chegou aos reguladores. Há preocupação com reservatórios, barragens, transmissão, distribuição e eventual aumento do despacho térmico em 2027, caso a seca afete regiões estratégicas do Norte e Nordeste.

No agronegócio, os impactos tendem a ser heterogêneos. Algumas culturas podem se beneficiar de condições específicas, mas o consenso entre analistas é que a volatilidade climática exige maior planejamento operacional, logístico e financeiro.

O risco que ainda não entrou na conta

Há uma segunda camada de preocupação além dos danos físicos provocados por secas, enchentes e ondas de calor: os efeitos sobre inflação, juros, crédito e crescimento econômico.

Relatório recém-publicado da Genial Investimentos indica que os investidores ainda parecem subestimar os impactos potenciais de um episódio forte ou “super” de El Niño. O temor é que um choque climático se some às tensões políticas globais, produzindo um novo choque de oferta em alimentos e energia.

O precedente mais citado é o episódio de 2015-2016. Segundo análise do JP Morgan reproduzida pelo Valor Econômico, a produção agrícola brasileira caiu cerca de 5%, enquanto os preços dos alimentos subiram mais de 20% ao longo dos dois anos seguintes. Os custos de energia também avançaram significativamente.

Mesmo o episódio mais recente, entre 2023 e 2024, ajudou a pressionar a inflação de alimentos. A safra agrícola nacional registrou retração de 3,7% e, com isso, o IPCA dos alimentos saiu de terreno negativo para uma alta anual próxima de 8%.

Para Brasília, isso significa risco de inflação persistente justamente quando governo e Banco Central esperavam o inverso. Para as empresas, significa a possibilidade de juros elevados por mais tempo, crédito mais caro e maior volatilidade cambial. Gestores já alertam que o cenário de desinflação projetado para os próximos anos pode ser comprometido caso um evento climático severo afete a produção de alimentos em larga escala.

Setores sob observação

Quatro áreas são particularmente sensíveis ao fenômeno: geração de energia, mineração e siderurgia, sistema financeiro e agronegócio.

No sistema financeiro, o principal canal de transmissão é o crédito rural. Bancos com maior exposição ao agronegócio podem enfrentar deterioração de carteiras caso secas ou enchentes comprometam safras e receitas de produtores. O mesmo raciocínio vale para seguradoras expostas aos segmentos rural, patrimonial e automotivo.

Na energia, o risco não se resume à geração hidrelétrica. Eventos extremos podem criar desequilíbrios regionais no Sistema Interligado Nacional, pressionando preços e aumentando custos operacionais para agentes do setor.

Já na mineração e siderurgia, chuvas intensas, interrupções logísticas e restrições operacionais podem afetar produção, transporte e exportações.

Os governos se movem

A Casa Civil coordena uma sala de situação que reúne diversos ministérios e órgãos federais para monitorar o fenômeno e organizar respostas preventivas.

Entre as medidas em discussão estão reforço de ações de combate a incêndios florestais, preparação logística para atendimento de comunidades potencialmente isoladas, monitoramento permanente das regiões vulneráveis e coordenação entre Defesa Civil, Cemaden, INPE e demais órgãos envolvidos.

Governos estaduais e municipais também começaram a revisar protocolos de emergência, sobretudo em áreas sujeitas a enchentes, secas prolongadas e incêndios.

Mas o ponto de partida ainda é precário. Estudo publicado em julho de 2025 na revista Sustainable Cities and Society, com informações dos 5.569 municípios brasileiros, concluiu que menos de 13% das cidades dispõem de capacidade institucional considerada adequada para enfrentar eventos climáticos extremos.

O que observar em Relações Governamentais

O tema tende a ganhar peso crescente na agenda pública durante o segundo semestre.

Executivos de setores regulados devem monitorar medidas emergenciais em energia, logística e abastecimento; programas federais de mitigação e reconstrução; políticas de crédito rural e seguro agrícola; investimentos em infraestrutura resiliente; iniciativas de gestão hídrica e segurança energética; flexibilizações regulatórias temporárias para garantir continuidade de serviços.

O El Niño tem potencial para transformar o clima em tema transversal de políticas públicas, afetando desde orçamento e infraestrutura até agricultura, seguros e mercado financeiro.

Como as empresas devem se preparar

O fenômeno deve ser tratado como um risco operacional e financeiro. Isso significa revisar planos de contingência, mapear vulnerabilidades logísticas, testar cadeias alternativas de suprimento, reavaliar exposição geográfica de ativos críticos e incorporar cenários climáticos às projeções financeiras para 2027.

Também ganha importância a revisão de coberturas securitárias, estratégias de continuidade de negócios e protocolos de resposta rápida. Segundo a CNSeg, que reúne as empresas brasileiras do setor de seguros e previdência, 67 eventos climáticos relevantes ocorridos entre 2022 e 2024 geraram prejuízos estimados em R$ 184 bilhões no Brasil.

Resumo da ópera

Quem tratar o El Niño apenas como questão meteorológica pode descobrir tarde demais que ele também era uma variável de negócios, capaz de afetar inflação, logística, energia, crédito e crescimento econômico.

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Carlos Graieb

Carlos Graieb é jornalista formado em Direito, editor sênior do portal O Antagonista e da revista Crusoé. Atuou em veículos como Estadão e Veja. Foi secretário de comunicação do Estado de São Paulo (2017-2018). Cursa a pós-graduação em Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

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