Cada vez mais cubanos fogem para o… Brasil
Solicitações de refúgio batem recorde, superam as de venezuelanos e refletem crises política, econômica e energética na ilha
O Brasil registrou 13 mil pedidos de refúgio feitos por cubanos até abril deste, conforme dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), vinculado ao Ministério da Justiça e à Universidade de Brasília (UnB).
No mesmo período, a Polícia Federal contabilizou cerca de 6 mil entradas regulares de cidadãos cubanos pelos postos de fronteira do país. A discrepância entre os dois números indica avanço da migração por vias irregulares, fenômeno já notado por pesquisadores e entidades de acolhimento em Roraima.
Travessias clandestinas chegam a Roraima
Na madrugada de 11 de junho, agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) encontraram 43 pessoas caminhando pelo acostamento da BR-401, no município de Cantá, a cerca de 10 quilômetros de Boa Vista. O grupo, formado por crianças, mulheres e homens, havia atravessado horas antes a fronteira com a Guiana, depois de deixar Cuba.
Segundo Isaias Magalhães, agente e chefe de comunicação da PRF em Roraima, “são pessoas que estão chegando aqui em situação bem degradante, alguns sem se alimentar, comendo só biscoito e com doenças respiratórias e gastrointestinais”. Os imigrantes haviam sido deixados pela rede de transporte clandestino que organizou a travessia.
O grupo se somou a outros milhares de cubanos que pediram refúgio neste ano. O Ministério da Justiça observa que parte dos pedidos pode se referir a pessoas que já estavam no Brasil havia mais tempo e só agora formalizaram a solicitação.
Ainda assim, o volume de entradas irregulares tem crescido, segundo a PRF, embora o número de imigrantes que buscam refúgio diretamente no posto de fronteira de Bonfim também tenha aumentado na última semana.
A Guiana é hoje um dos poucos países que não exige visto de cubanos para entrada. Essa condição ganhou peso depois que a Nicarágua, antiga porta de acesso à América Central, suspendeu em 8 de fevereiro deste ano a dispensa de visto para cidadãos cubanos, sob pressão do governo americano.
Antes dessa mudança, parte significativa dos cubanos seguia por terra rumo aos Estados Unidos, passando por Honduras, Guatemala e México.
Crise interna impulsiona saída de cubanos
Os números de 2026 confirmam tendência iniciada no ano passado: em 2025, os cubanos ultrapassaram os venezuelanos como nacionalidade com mais pedidos de refúgio no Brasil, somando cerca de 42 mil solicitações — 20 mil acima do total registrado por venezuelanos.
O movimento coincide com o endurecimento das políticas migratórias dos Estados Unidos sob o governo de Donald Trump, e com o agravamento da crise interna cubana. A ilha enfrenta colapso nas usinas termelétricas, apagões diários e escassez de combustível, agravados pela perda do fornecimento de petróleo venezuelano após a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos.
O turismo, historicamente uma das principais fontes de receita do país, também recuou. Segundo o Escritório Nacional de Estatísticas e Informações de Cuba (Onei), a ilha recebeu 4,7 milhões de visitantes em 2018, gerando US$ 2,782 bilhões. Em 2025, esse número caiu para 1,8 milhão.
Entre os que deixaram o país está o psicólogo cubano Evelio Vazques, de 45 anos, que recorreu ao trabalho como guia turístico e motorista de carros antigos para sustentar a família. “Com o salário de psicólogo, não dava para comprar nem 30 ovos no mês. E mesmo com o dinheiro você pode passar 20 dias sem encontrar por que simplesmente não há ovos”, afirmou à BBC.
Vazques também descreve o racionamento de energia elétrica no país: “Cuba hoje é um país que, mesmo se você receber remessas do exterior, não há o que comprar, a eletricidade dura duas horas, depois ficamos 30, 34 horas seguidas sem energia. É um colapso”.
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