Uma famosa fábrica de calçados fecha para sempre, trazendo o fim de uma era
O que levou à famosa fábrica de calçados a fechar
A Gomas Gaspar, fábrica de solados e bases de borracha para calçados localizada no bairro San Vicente, em Córdoba, encerrou definitivamente as atividades em abril de 2026 após mais de 30 anos de operação. O fechamento deixou 40 trabalhadores demitidos sem indenização e expõe uma crise que já eliminou mais de 100 fábricas e 20 mil empregos formais no setor de calçados da Argentina.
O que era a Gomas Gaspar e qual foi sua importância para Córdoba?
A Gomas Gaspar era uma empresa familiar especializada na fabricação de solados de borracha para calçados urbanos, esportivos e sociais. Durante três décadas, funcionou como fornecedora estratégica para marcas nacionais argentinas, sendo um dos poucos fabricantes de insumos para calçado instalados no interior do país. No bairro San Vicente, a fábrica era considerada um dos pilares históricos do emprego local, com funcionários que acumulavam até duas décadas de vínculo com a empresa.
Os primeiros sinais de crise apareceram em dezembro de 2025, quando a empresa deixou de pagar o décimo terceiro salário. Segundo Arturo Pitkard, delegado regional do Sindicato Obrero del Caucho, o proprietário Rodolfo Polero concedeu 30 dias de férias forçadas, demitiu os funcionários por telegrama e depois pediu que voltassem a trabalhar informalmente com promessas de pagamento que nunca se concretizaram. Em seguida, desapareceu, deixando os trabalhadores sem indenização, salários atrasados e sem interlocutor para negociar.
O que os números revelam sobre a crise do calçado na Argentina?
O caso da Gomas Gaspar não é isolado. O relatório da Fundação Protejer de abril de 2026 mostra que a produção têxtil argentina caiu 33% em fevereiro de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior. O segmento específico de confecção, couro e calçado registrou queda de 18% em relação a 2025 e de 20% frente a 2023. A capacidade instalada do setor caiu para menos de 30%, o nível mais baixo da série histórica.
No mercado de trabalho, o impacto é estrutural. Segundo dados do INDEC compilados pela Fundação Protejer, desde dezembro de 2023 foram perdidos mais de 20.700 empregos formais na cadeia têxtil, indumentária, couro e calçado, uma queda de 17% no emprego registrado do setor, a maior redução proporcional entre todos os segmentos produtivos da Argentina.

Como as importações aceleraram o colapso das fábricas locais?
O presidente da Câmara da Indústria do Calçado da Argentina, Horacio Moschetto, alertou para uma queda de consumo e produção superior a 30% nos últimos dois anos, o fechamento de mais de 100 fábricas e a perda de cerca de 10 mil empregos diretos no setor. Em paralelo, as importações de calçado cresceram 100% e as compras por plataformas digitais internacionais subiram 400% no mesmo período.
Os dados do INDEC confirmam o cenário: a fabricação de calçado caiu 30,9% em novembro de 2025 em relação ao ano anterior. Em 2024, entraram no país cerca de 51 milhões de pares importados, um aumento de 40% sobre 2023, segundo dados setoriais. O país produzia historicamente cerca de 120 milhões de pares por ano. Em 2025, esse número caiu para 80 milhões, e o primeiro trimestre de 2026 acumulou queda adicional de 25% frente ao mesmo período de 2025.
| Indicador do setor | Dado verificado | Situação |
|---|---|---|
| Produção de calçado (nov/2025) Queda interanual medida pelo INDEC | Recuo de 30,9% em relação a novembro de 2024 | Colapso |
| Empregos formais perdidos Cadeia têxtil, couro e calçado desde dez/2023 | Mais de 20.700 postos eliminados, queda de 17% | Maior queda setorial |
| Fábricas fechadas Setor de couro e calzado em dois anos | Mais de 100 unidades encerradas; 15% do total de empresas do segmento | Crítico |
| Importações de calzado (2024) Volume de pares importados versus ano anterior | Cerca de 51 milhões de pares, alta de 40% sobre 2023 | Recorde histórico |
Quais outras empresas do setor estão em crise na Argentina?
O fechamento da Gomas Gaspar se soma a uma série de encerramentos e reestruturações que abalaram o setor de calçados argentino em 2025 e 2026. A John Foos, marca criada nos anos 1980, encerrou a fabricação de tênis em sua planta de Beccar, no partido de San Isidro, e passou a importar produtos prontos da Ásia. A Viamo entrou em concurso preventivo de credores após conflitos laborais e deterioração financeira. O Grupo Dass, fabricante de calçados para marcas como Nike, Adidas, Fila e Asics, desligou 43 funcionários e concentrou operações após fechar uma planta em Coronel Suárez em janeiro de 2025.
O relatório da CEPAL sobre a indústria manufatureira da América Latina aponta que setores intensivos em mão de obra são os mais vulneráveis à combinação de abertura comercial acelerada com queda do consumo interno. A manufatura de calçados, por sua natureza local e dependência do mercado doméstico, tende a absorver o impacto de forma mais direta e irreversível do que setores com maior capacidade de exportação.
Leia também: Todos os brasileiros precisam atualizar seus documentos de identidade para o novo formato: como fazer passo a passo
O que explica o desaparecimento das pequenas fábricas familiares?
O modelo da Gomas Gaspar, assim como o de centenas de pequenas fábricas familiares argentinas, dependia de três condições que deixaram de existir simultaneamente: consumo interno estável, custo de produção competitivo frente ao produto importado e acesso a crédito para atravessar períodos de baixa. Em 2025, as três condições colapsaram juntas. A inflação corroeu o poder de compra das famílias, os produtos asiáticos chegaram a preços muito abaixo do custo de produção local e o crédito encareceu na mesma velocidade que a demanda caiu.
O delegado do Sindicato Obrero del Caucho, Arturo Pitkard, resumiu a situação com precisão: funcionários com quase três décadas de casa aceitaram trabalhar informalmente porque conheciam o dono e quiseram ajudar. A confiança não foi retribuída. O que ficou para trás, além das dívidas trabalhistas, é a memória de uma fábrica que por 30 anos fabricou o solado que sustentou os passos de meio país.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)