Dennys Xavier na Crusoé: Cronicamente enlameados
Após muitos anos, anomalias deixam de ser experimentadas como anomalias. Essa familiaridade merece ser observada com atenção
Os brasileiros lidam de modo peculiar com a própria decadência política.
Em muitos países, determinados acontecimentos, imersos em certa gravidade, produzem rupturas as mais diversas: a confiança desaparece, governos caem, partidos se dissolvem, reputações tornam-se irrecuperáveis (o que leva a ostracismo político que dura vidas inteiras).
O sistema político continua existindo, evidentemente, mas certas linhas, uma vez atravessadas, alteram de forma duradoura a percepção que a sociedade tem de si mesma.
Eu diria, de modo mais direto, que são lugares nos quais a esquecida vergonha na cara ainda se impõe de alguma forma.
No Brasil, o movimento segue outro ritmo.
Capacidade de adaptação
Os escândalos acumulam-se ao longo das décadas, atravessam governos de diferentes orientações, envolvem instituições que deveriam fiscalizar umas às outras e alcançam esferas cada vez mais amplas da vida pública.
Mesmo assim, permanece uma curiosa (e, aqui, triste) capacidade de adaptação.
O país absorve o impacto, comenta durante algum tempo (não mais do que algumas horas), divide-se em discussões apaixonadas e, pouco depois, reincorpora o acontecimento ao fluxo normal dos dias.
Para ser preciso, devo dizer que não se trata exatamente de esquecimento. A memória permanece. O que muda é o lugar que ela ocupa.
Aquilo que em determinado momento parecia intolerável acaba encontrando acomodação dentro da experiência coletiva, numa grande pocilga em que dejetos e rejeitos fétidos passam a fazer parte do horizonte cotidiano.
Sim, nos acostumamos ao pútrido, ao nauseante.
Essa disposição não pode ser explicada apenas pela indiferença.
O brasileiro está longe de ser indiferente à política. Poucos povos acompanham com tanta intensidade os conflitos do poder. Poucos discutem tanto os atos dos governantes, as decisões dos tribunais, os movimentos dos partidos e as disputas eleitorais.
O problema encontra-se noutro lugar.
Indignação
A indignação…
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