Há Vorcaros que vêm para o bem
Considerando que o Brasil não é um país abundante de heróis, precisamos aprender com os vilões
Agora que o escândalo do Banco Master se transformou nos escândalos do Banco Master, e que da série de inegável sucesso surgiram spin-offs ainda mais promissores, temos de reconhecer que já não se trata de corrupção, mas de pedagogia.
Daniel Vorcaro é um educador. Um Anísio Teixeira da falcatrua. Ele ensina para quem está disposto a aprender que direita, esquerda ou centro, bolsonaristas, petistas ou Centrão, todos pecam, pecaram ou pecarão – eleitos e respectivos eleitores. Do togado ao capinha, não sobra ninguém.
As transações que a princípio só tinham de suspeito muitos números e poucos nomes foram revelando, semana após semana, mês após mês, os protagonistas e coadjuvantes de mais uma superprodução que entrará para o calendário litúrgico da políci… digo, política brasileira.
Se há pouquíssimos dias Lula comemorava a vitória em outubro por uma sequência de gols contra de Flávio Bolsonaro, agora quem precisa baixar as linhas é o próprio governo, que viu Jaques Wagner deixando mais espaço no meio que o Casemiro.
Todos estão bem representados. Bolsonaristas apontam dedos para petistas que apontam dedos para bolsonaristas que apontam dedos para centristas. O Judiciário se defende como pode das acusações do Legislativo, que se vira como sabe das críticas do Executivo, que acusa o golpe mas jura que não é com ele.
Que um tipo como Vorcaro, mafioso sem pedigree, tenha influência tão grande nos rumos e na falta de rumo da República, e seduza nossos mandarins com jantares, viagens, estadias, mimos e patrocínios, deveria instruir brasileiros que estragam almoços de domingo, atrasam a vacina do filho, escovam os dentes com Ypê ou torcem pela Argentina na Copa.
A obscenidade nada ideológica de mais um episódio que, nós sabemos muitíssimo bem, terminará como terminaram os outros episódios – em revisões, anulações, acordos, anistias e livros didáticos – escancara que, neste país que já teve futuro, o dinheiro compra tudo, menos uma peruca decente para o Jim Caviezel.
Fazer o quê? Considerando que o Brasil não é uma terra abundante de heróis, apesar dos mais de 200 milhões de candidatos, prestemos atenção e aprendamos alguma coisa com os vilões. Um novo plebiscito se aproxima. As opções existem, ou existiriam, se quiséssemos, mas não sabemos quem são os mocinhos. Não queremos saber. Nosso patriotismo é pulsão de morte.
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