O problema que a China não consegue resolver
Os números mostram uma China dividida entre exportações em alta e demanda doméstica fraca, cenário que preocupa economistas e autoridades
A China, segunda maior economia do mundo, continua crescendo, mas os motores que impulsionam esse avanço estão cada vez mais concentrados em um único lugar. Enquanto as exportações seguem em alta, o consumo das famílias e os investimentos domésticos mostram sinais de enfraquecimento que preocupam economistas e autoridades.
O presidente Xi Jinping tem defendido uma economia mais apoiada no consumo interno. Em uma reunião de dirigentes realizada no fim do ano passado, ele pediu ações coordenadas para ampliar o consumo e os investimentos. Os resultados, porém, seguem limitados.
As vendas no varejo da China caíram 0,6% em maio na comparação anual. Foi a primeira retração desde dezembro de 2022, quando o país abandonava as restrições da política de Covid zero. O dado é visto como um retrato da cautela persistente das famílias chinesas.
O enfraquecimento do mercado imobiliário continua pesando sobre a confiança dos consumidores. Os preços das residências novas registraram nova queda em maio, prolongando uma crise que já dura cinco anos.
Parte da desaceleração também está ligada ao esgotamento de programas de subsídios para a troca de eletrodomésticos e veículos. Essas iniciativas impulsionaram compras em 2025, mas podem ter antecipado gastos que ocorreriam apenas neste ano.
Os investimentos mostram um quadro semelhante. O investimento em ativos fixos acumulou retração de 4,1% entre janeiro e maio. O indicador também sofre questionamentos sobre a qualidade dos dados, já que governos locais possuem incentivos para reportar números maiores.
Ao mesmo tempo, as exportações seguem avançando em ritmo forte. Os embarques ao exterior cresceram quase 20% em maio, impulsionados pela demanda internacional por semicondutores, equipamentos ligados à inteligência artificial e produtos de energia renovável.
Complementando o quadro, a produção industrial cresceu 4,5% em maio ante igual mês de 2025, acelerando ante abril e sustentada por setores de alta tecnologia e equipamentos ligados a exportações. Esse desempenho reforça a resiliência da atividade manufatureira voltada ao exterior, mesmo em meio à fraqueza doméstica.
Essa diferença levou alguns economistas a descrever a situação como um crescimento em duas velocidades. A economista Sheana Yue, da Oxford Economics, afirmou nesta semana que há uma divergência crescente entre a demanda externa resiliente e a atividade doméstica mais fraca.
O superávit comercial chinês atingiu o recorde de 1,2 trilhão de dólares no ano passado. Embora esse desempenho sustente a atividade econômica, ele também amplia atritos comerciais com parceiros como Estados Unidos e União Europeia.
Economistas afirmam que será difícil sustentar o crescimento por muitos anos sem uma transição para um modelo menos dependente de investimentos e exportações.
Apesar das dificuldades, A China ainda projeta crescimento entre 4,5% e 5% neste ano. Como a meta permanece ao alcance, analistas avaliam que o governo não demonstra pressa para lançar um novo pacote amplo de estímulos ao consumo.
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