Igreja da Inglaterra assume responsabilidade por adoções forçadas
Instituição participou de sistema que retirou bebês de mulheres solteiras ao longo de três décadas: “Estamos profundamente envergonhados”
A Igreja da Inglaterra formalizou um pedido de desculpas público pelo papel que desempenhou na retirada compulsória de recém-nascidos de mães solteiras, prática que se estendeu dos anos 1950 até a década de 1980.
A arcebispa de Canterbury, Sarah Mullally, reconheceu que a instituição contribuiu para um sistema marcado pelo silêncio e pela punição social às mulheres grávidas fora do casamento, enquanto os homens envolvidos permaneciam sem qualquer responsabilização.
Décadas de separações em lares controlados pela Igreja
Segundo o relatório divulgado pela própria Igreja, a instituição esteve ligada a mais de 200 estabelecimentos conhecidos como “casas para mães e bebês” na Inglaterra e no País de Gales entre 1949 e 1976.
Nesses locais, mulheres e meninas eram encaminhadas para dar à luz longe de suas famílias e comunidades. Ao fim do período, os filhos eram entregues para adoção, em muitos casos sem o consentimento das mães.
O levantamento estima que cerca de 185 mil bebês foram retirados de mães solteiras e colocados para adoção na Inglaterra e no País de Gales durante esse intervalo. A pesquisa foi conduzida ao longo de dois anos e seus resultados foram tornados públicos junto ao pedido de desculpas.
Na declaração oficial, a arcebispa Mullally afirmou que “a vergonha que vocês foram obrigados a sentir foi errada” e completou: “Estamos profundamente envergonhados por isso ter acontecido com pessoas sob os cuidados de comunidades cristãs”.
A autoridade religiosa também reconheceu que a Igreja “fazia parte dessa sociedade e ajudou a perpetuar essas atitudes”, referindo-se a um contexto que, segundo ela, “muitas vezes valorizava o sigilo e a respeitabilidade em detrimento da compaixão e do cuidado”.
Sobreviventes e pressão por reconhecimento
O pedido de desculpas foi resultado de anos de mobilização de mulheres afetadas pela prática. Diana Defries, representante do Movimento por um Pedido de Desculpas em Adoção, relatou à BBC que sua filha lhe foi retirada logo após o parto, em 1974.
Ela descreveu a mudança de perspectiva que vivenciou ao longo do tempo: “Comecei a entender que não fui eu. Eu não fiz isso. Isso foi feito comigo, isso foi feito com a minha filha”. Defries afirmou que o reconhecimento público já deveria ter ocorrido há mais tempo e que as famílias “esperaram há muito tempo” por ele.
O governo britânico também sinalizou que apresentará um pedido de desculpas institucional. A secretária de Educação, Bridget Phillipson, declarou a uma comissão parlamentar que o ato ocorreria “muito em breve”, acrescentando: “Quero dizer a todos os afetados: vocês receberão o pedido de desculpas que merecem profundamente”.
Um painel parlamentar já havia concluído, em 2022, que o Estado britânico “tinha a responsabilidade final pela dor e sofrimento causados por instituições públicas e funcionários estatais que forçaram mães a adoções indesejadas”.
Fenômeno além das fronteiras britânicas
A prática não se restringiu à Inglaterra. Lares similares operaram na Irlanda, Austrália e Canadá, vinculados tanto a igrejas protestantes quanto à Igreja Católica Romana.
Na Irlanda, a descoberta de restos mortais de centenas de crianças em uma vala comum em Tuam, no condado de Galway, levou o governo a abrir uma investigação formal em 2021. O país também criou um programa de reparação financeira para pessoas que passaram por essas instituições.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)