O gelo que afeta o tempo: estudo da Nature indica que o derretimento polar pode adiar a retirada de 1 segundo dos relógios
A perda de gelo nos polos está alterando a rotação do planeta e mexendo até com a medição oficial do tempo
O tempo medido por relógios atômicos parece independente das mudanças climáticas, mas a rotação terrestre cria uma ligação inesperada entre os dois temas. O derretimento das grandes camadas de gelo redistribuiu massa suficiente para desacelerar discretamente o planeta e adiar uma correção inédita no horário mundial.
Como o derretimento polar conseguiu interferir na contagem do tempo?
A Terra não gira com velocidade absolutamente constante. Marés, movimentos atmosféricos, correntes oceânicas, terremotos e alterações no núcleo modificam a duração do dia em frações minúsculas. Embora essas diferenças sejam imperceptíveis na rotina, elas podem ser detectadas por instrumentos astronômicos e comparadas com relógios atômicos extremamente precisos.
Nas últimas décadas, outro fator passou a ganhar importância: a perda acelerada de gelo na Groenlândia e na Antártica. Quando essa massa derrete e chega aos oceanos, ela se espalha para regiões mais distantes dos polos, produzindo uma mudança física pequena, mas mensurável, na forma como o planeta gira.
O que o estudo revelou sobre o derretimento polar?
O estudo concluiu que o derretimento das camadas de gelo desacelerou a rotação da parte sólida da Terra e pode ter adiado de 2026 para aproximadamente 2029 a necessidade de retirar um segundo do Tempo Universal Coordenado, o UTC. Seria o primeiro uso de um segundo bissexto negativo na história da cronometragem mundial.
A pesquisa foi conduzida pelo geofísico Duncan Carr Agnew, da Scripps Institution of Oceanography, ligada à Universidade da Califórnia em San Diego, e publicada em março de 2024 na revista Nature. O cálculo combinou observações da rotação terrestre, medições do campo gravitacional e modelos sobre o comportamento do núcleo e das massas de gelo.
- Estudo publicado na revista Nature em março de 2024
- Pesquisa liderada pelo geofísico Duncan Carr Agnew
- Correção antes projetada para ocorrer por volta de 2026
- Possível segundo bissexto negativo adiado para cerca de 2029
Para visualizar essa relação incomum, o canal WION, que conta com mais de 10,5 milhões de inscritos no YouTube, apresenta um vídeo sobre como o derretimento do gelo pode interferir na rotação terrestre e levar à necessidade de um segundo bissexto negativo por volta de 2029. O conteúdo aborda a redistribuição da massa dos polos para os oceanos e seus efeitos na cronometragem global, alinhado ao tema tratado acima:
Por que a água próxima ao equador faz a Terra girar mais devagar?
O fenômeno segue um princípio conhecido da física rotacional. Quando uma patinadora abre os braços durante um giro, sua massa se afasta do eixo e a rotação fica mais lenta. Algo semelhante ocorre quando o gelo concentrado nas regiões polares derrete e parte da água se desloca para áreas oceânicas mais próximas da linha do equador.
Essa redistribuição aumenta o momento de inércia da Terra e reduz discretamente sua velocidade angular. O efeito não provoca alterações perceptíveis na duração de um dia comum, mas é grande o suficiente para aparecer nos cálculos usados por cientistas e instituições responsáveis pela definição do tempo internacional.
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O que o derretimento polar muda nos relógios e sistemas digitais?
O artigo científico publicado na revista Nature sobre o problema global de cronometragem mostrou que a influência climática atua ao mesmo tempo que movimentos profundos no interior do planeta. Enquanto alterações no núcleo líquido contribuíram para acelerar a rotação da superfície, a perda de gelo polar produziu um efeito contrário, freando parte dessa aceleração.
O estudo não afirma que os relógios pessoais estejam atrasando por causa do clima. Ele mostra que a rotação usada como referência astronômica se distanciaria dos relógios atômicos de maneira diferente sem o efeito do gelo derretido.
O que é um segundo bissexto negativo e por que ele preocupa especialistas?
O UTC é produzido por relógios atômicos, mas precisa permanecer próximo do tempo baseado na rotação terrestre. Desde 1972, quando a diferença se tornou grande demais, instituições internacionais adicionaram segundos bissextos ao horário mundial. Em vez de retirar tempo, todos os ajustes realizados até hoje acrescentaram um segundo.
Um segundo bissexto negativo faria o contrário: um minuto teria apenas 59 segundos, eliminando uma unidade do relógio para realinhar os dois sistemas. Como esse procedimento nunca foi aplicado, especialistas temem falhas em softwares, redes financeiras, telecomunicações, servidores e tecnologias que dependem de registros cronológicos perfeitamente ordenados.
- Relógios atômicos formam a base do UTC
- Rotação terrestre fornece a referência astronômica
- Segundos positivos já foram adicionados desde 1972
- Um segundo negativo nunca foi aplicado mundialmente

Essa mudança pode provocar um colapso no GPS ou alterar a duração dos dias?
O adiamento não significa que satélites, celulares ou sistemas de navegação sofrerão automaticamente um colapso em 2029. A preocupação está na implementação técnica de uma correção inédita, porque programas diferentes podem interpretar a retirada do segundo de maneiras incompatíveis. Sistemas de posicionamento e redes digitais utilizam referências temporais rigorosas, mas contam com padrões próprios e mecanismos de sincronização.
Também não significa que as pessoas perceberão os dias ficando maiores. A alteração está na escala de milissegundos e precisa ser acumulada durante anos para produzir uma diferença de um segundo. O resultado mais marcante da pesquisa é outro: o aquecimento global já redistribuiu massa em escala suficiente para alcançar não apenas oceanos e geleiras, mas também os cálculos que definem oficialmente o tempo no planeta.
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