A Machu Picchu baiana: a vila de pedra que teve 10 mil garimpeiros e hoje vive com 380 moradores
Vila de pedra na Bahia já teve 10 mil garimpeiros e hoje tem 380 moradores
Encravada entre paredões de pedra da Chapada Diamantina, Igatu guarda casas e muros erguidos sem cimento que viraram ruínas com cara de civilização antiga. Distrito de Andaraí, no coração da Bahia, a vila já foi um dos cantos mais ricos do interior do país e hoje cabe num punhado de ruas.
Por que chamam Igatu de Machu Picchu baiana?
O apelido nasceu das construções de pedra que cobrem a serra e lembram cidades perdidas de tempos remotos. Os garimpeiros usavam o material que tinham de sobra, a pedra das próprias montanhas, e empilhavam blocos sem argamassa, ou seja, sem nenhuma cola entre eles. Quando o garimpo acabou, as casas foram abandonadas e formaram cerca de 7 km de ruínas que podem ser visitadas a pé.
O nome Igatu vem do tupi e significa “rio bom”, mas a vila também é conhecida como Xique-Xique do Igatu e Cidade de Pedras. O conjunto arquitetônico foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2000, conforme o órgão federal, somando-se à proteção do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC).

Do auge do diamante ao quase abandono
O garimpo começou por volta de 1845, quando aventureiros de Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás encontraram diamantes quase na superfície, às margens do rio. Em poucas décadas, o povoado chegou a abrigar mais de 10 mil habitantes e teve até cinema, virando um dos pontos mais ricos do sertão baiano.
Com o fim da extração no início do século XX, a maioria partiu em busca de melhores condições de vida e a vila ficou vazia, com casas e comércios fechados. Alguns moradores resistiram e, aos poucos, Igatu se reergueu pelo turismo, que hoje é sua principal atividade, segundo o IPHAN. A vila também é a terra natal do escritor Herberto Sales, que retratou o ciclo do diamante no romance “Cascalho”.

Como é morar e o que fazer na cidade de pedra?
Morar em Igatu é abrir mão da pressa: são pouco mais de 380 moradores, em sua maioria descendentes dos garimpeiros, num lugar pacato e cercado de natureza. A vila é o único povoado que aparece no mapa dentro dos limites do Parque Nacional da Chapada Diamantina, o que garante sossego e paisagem, mas exige paciência com o sinal de telefonia, que oscila na região rural.
As atrações ficam concentradas e quase todas a pé. Veja as principais:
- Bairro Luís dos Santos: a chamada cidade fantasma, com casas abertas e paredes tomadas pela vegetação, o cenário mais fotogênico do conjunto.
- Galeria Arte e Memória: museu a céu aberto com utensílios do garimpo e exposições de artistas plásticos.
- Rampa do Caim: caminhada de cerca de 10 km até um mirante com vista dos vales do Pati e do Paraguaçu.
- Cachoeira dos Pombos: a 800 metros do centro, de fácil acesso, ideal para relaxar.
- Igreja de São Sebastião: capela de pedra de 1854, erguida com ajuda dos moradores.
A vila ainda rende escalada e boulder nos paredões, além de festas tradicionais como a de São João, em junho, e o Festival de Música e Arte, entre agosto e setembro.
Quem quer conhecer a história de uma intrigante vila de pedra e descobrir como é a vida por lá, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Boa Sorte Viajante – Matheus Boa Sorte, que conta com mais de 2,8 milhões de visualizações, onde Matheus Boa Sorte mostra os mistérios da “cidade fantasma” de Igatu, na Chapada Diamantina:
Como é o clima e como chegar?
O clima de altitude deixa Igatu mais ameno que o litoral baiano, com dias quentes e noites frescas que podem cair abaixo dos 18°C. A seca entre maio e setembro é a melhor época para trilhas, enquanto o verão concentra as chuvas e deixa as cachoeiras cheias.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo de Andaraí, cidade-base. Condições podem variar.
O acesso é pela BA-142: são cerca de 14 km de Andaraí por estrada de pedras ou 22 km de Mucugê por estrada não pavimentada, o que faz parte da aventura. A região rende reconhecimento de peso: a Chapada Diamantina, que inclui Igatu, ficou em 3º lugar na categoria Ecoturismo do prêmio “O Melhor do Turismo Brasileiro”, do Estadão, conforme a Secretaria de Turismo da Bahia (SETUR).
Vale a viagem
Igatu reúne uma combinação rara: ruínas que contam um capítulo da história econômica do Brasil, a paisagem grandiosa da Chapada Diamantina e uma comunidade que mantém viva a memória do garimpo entre as pedras. É turismo, história e sossego no mesmo cenário.
Você precisa subir até essa cidade de pedra e sentir o tempo passar mais devagar entre os muros que os garimpeiros deixaram.
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