Dois grandes bustos de mármore do século III d.C. foram encontrados enterrados no fundo de uma prensa romano-bizantina em Cesareia
O achado de duas esculturas de mármore em Israel, datadas de cerca de 1.700 anos, reacende de forma explosiva o interesse pelo passado romano-bizantino
O achado de duas esculturas de mármore em Israel, datadas de cerca de 1.700 anos, reacende de forma explosiva o interesse pelo passado romano-bizantino da região e levanta suspeitas de um ocultamento intencional.
Descobertas no último dia de uma escavação de salvamento, durante obras da ferrovia entre Haifa e Tel Aviv, as peças surgiram como fragmentos no solo e logo se revelaram um conjunto raríssimo, preservado em condições enigmáticas e com potencial para reescrever parte da história cultural da costa oriental do Mediterrâneo.
O que torna o achado das esculturas de mármore de Licurgo tão diferente?
As esculturas de mármore pertencem ao tipo protome, representando apenas a cabeça e a parte superior do tronco, e foram encontradas alinhadas, de bruços, no fundo de um poço de coleta de vinho em um lagar romano-bizantino desativado.
Em vez de descartadas como entulho, foram claramente escondidas, sugerindo medo de saque, fúria iconoclasta ou colapso social repentino que obrigou seus donos a agir às pressas.
No entorno, surgiram vestígios de uma casa de banhos e edificações de alto padrão, indicando uma luxuosa vila próxima a Cesareia marítima.
Nesse cenário, as protomes teriam decorado ambientes de elite, funcionando como símbolos de poder cultural e distinção intelectual em uma região marcada pela disputa de identidades políticas e religiosas.

Quem é o misterioso Licurgo citado na inscrição grega?
Uma das esculturas traz o nome “Licurgo” gravado em grego, chave decisiva para conectar o retrato a figuras históricas de peso do mundo clássico.
Especialistas debatem se se trata de Licurgo de Esparta, associado à disciplina militar e às rígidas leis espartanas, ou de Licurgo de Atenas, ligado à vida política e financeira da cidade no século IV a.C., ambos usados como modelos de virtude cívica no mundo romano.
Retratos de líderes gregos circulavam em mármore como ícones de status e educação superior, exibidos em casas ricas ou edifícios públicos.
Assim, a presença de Licurgo na Palestina romana indica uma elite local ansiosa por se alinhar à tradição grega mais prestigiada, mesmo em meio a tensões culturais crescentes entre paganismo, judaísmo e cristianismo emergente.
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Como as esculturas de mármore de Licurgo serão estudadas em Tel Aviv?
Após o resgate, as peças foram enviadas ao MUZA, o Museu de Arte de Tel Aviv, onde devem ser exibidas no verão de 2026, depois de um rigoroso processo de limpeza, conservação e análise científica.
Para desvendar origem, função e trajetória das esculturas, os pesquisadores combinarão diferentes métodos técnicos e comparativos em uma investigação de fôlego internacional.
Entre as principais frentes de pesquisa previstas, destacam-se:
🔎 Como as esculturas de Licurgo serão estudadas em Tel Aviv?
Pesquisadores utilizarão técnicas históricas, arqueológicas e laboratoriais para confirmar autenticidade, origem e contexto das peças.
| Área de Investigação | O que será analisado | Objetivo Científico |
|---|---|---|
| 🎭 Estudo estilístico e fisionômico | Comparação dos traços faciais, proporções e estilo artístico com outros retratos já atribuídos a Licurgo. | Verificar se a representação corresponde aos modelos iconográficos conhecidos do legislador espartano. |
| 🏺 Análise da inscrição grega | Estudo do traçado das letras, fórmulas epigráficas utilizadas e possíveis marcas deixadas pela oficina escultórica. | Determinar a cronologia da peça e identificar sua possível origem de produção. |
| 🧪 Testes laboratoriais | Exames para identificar a procedência do mármore, além de vestígios de pigmentos, intervenções e restauros antigos. | Confirmar autenticidade, técnicas de fabricação e histórico de conservação da escultura. |
| 📜 Reconstrução do contexto histórico | Cruzamento dos achados arqueológicos com registros históricos de Cesareia e da região circundante. | Compreender onde a obra estava originalmente exposta e qual era sua função cultural ou política. |
Por que alguém escondeu estátuas de mármore em um poço de vinho?
A forma organizada como as esculturas foram depositadas no poço sugere um ato deliberado de ocultação, não um descarte casual.
Arqueólogos levantam a hipótese de que, em um momento de crise política, avanço do cristianismo ou violência contra imagens pagãs, proprietários tenham preferido esconder seus símbolos de prestígio em um lagar abandonado, esperando um retorno que nunca aconteceu.
O contraste entre a exposição luxuosa em uma vila de elite e o silêncio de séculos no fundo de um poço resume a brutal virada cultural do período romano-bizantino.
Hoje, trazidas à luz e prestes a ir para as vitrines do MUZA, as estátuas de Licurgo voltam à cena como peças-chave para entender como poder, medo e memória se cruzaram na costa israelense.

Qual é o impacto explosivo dessas esculturas de mármore para a arqueologia do Mediterrâneo?
O conjunto reforça a ideia de que elites da Palestina romana usavam figuras gregas como Licurgo para legitimar autoridade, disciplina e ordem cívica, mesmo longe dos grandes centros do mundo helênico.
Ao mesmo tempo, o gesto de escondê-las denuncia uma ruptura radical: o que antes era símbolo de orgulho passou a ser risco ou vergonha, num cenário de disputas religiosas e mudanças de mentalidade.
Somadas a outros retratos da região de Cesareia desde os anos 1990, as protomes ajudam a montar um mosaico mais agressivo e complexo da circulação de ideias entre Grécia e Oriente romano.
Cada detalhe — da inscrição em grego ao mármore possivelmente importado — alimenta uma narrativa irresistível para quem busca entender como imagens de poder quase desapareceram, para só agora voltarem a desafiar nossas certezas sobre o passado.
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