A cidade do Alasca onde quase todo mundo mora no mesmo prédio e pode ir ao mercado, à escola e à igreja sem sair de casa
A comunidade nasceu do clima extremo, do isolamento e de uma estrutura militar que acabou virando uma microcidade vertical
Existe uma cidade nos Estados Unidos onde ir ao mercado, levar os filhos à escola, ir à missa e pegar uma encomenda nos correios acontece tudo dentro do mesmo prédio, sem que os moradores precisem enfrentar o lado de fora. Não é ficção científica nem experimento social. É Whittier, uma comunidade real no Alasca, onde o clima tão extremo moldou uma forma de viver absolutamente única no mundo.
Onde fica Whittier e por que ela é quase inacessível
Whittier está encravada entre montanhas na costa sul do Alasca, às margens do Prince William Sound. Chegar até lá já é, por si só, uma aventura: a única via terrestre de acesso é um túnel que atravessa uma montanha inteira. O túnel tem apenas uma faixa, então o fluxo é alternado a cada meia hora, uma direção de cada vez, e fecha completamente por volta das 22h30. Quem perder o último horário fica do lado de fora até o dia seguinte. A passagem custa US$ 15 para veículos de passeio.
Qualquer acidente dentro do túnel bloqueia o acesso completamente, deixando a cidade isolada sem possibilidade de entrada de suprimentos ou evacuação. Essa vulnerabilidade não é apenas inconveniente: é parte da identidade de Whittier, um lugar que existe em seus próprios termos e no seu próprio ritmo.

O prédio onde 90% da população vive, trabalha e convive
Aproximadamente 220 pessoas chamam Whittier de lar, e a esmagadora maioria delas vive em um único edifício: o Hodge Building, com 15 andares e 196 apartamentos. Para evitar que os moradores precisem enfrentar ventos de mais de 100 km/h e até 6 metros de neve acumulada no inverno, o prédio foi transformado em uma microcidade vertical. Dentro dele funcionam:
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Como é a rotina das crianças e das famílias em Whittier
Para os cerca de 60 estudantes da cidade, nem mesmo o caminho até a escola exige enfrentar o frio. Um túnel no subsolo do Hodge Building conecta diretamente o prédio à escola local. As crianças crescem indo e voltando das aulas sem jamais pisar na neve durante o inverno. O parquinho infantil é completamente coberto para não ser soterrado pelos metros de neve que se acumulam a cada temporada.
A convivência tão próxima entre todos os moradores exigiu a criação de regras rígidas de convivência. A principal atividade econômica é a pesca, e por isso há placas na entrada do prédio exigindo que os moradores tirem as roupas com cheiro de peixe antes de entrar. Fumar é proibido a menos de 6 metros da entrada, obrigando os fumantes a encararem o frio lá fora. Cães devem andar na coleira, e há multas progressivas para quem descumprir as regras.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Luisito Comunica mostrando como é a rotina e o dia a dia das pessoas onde vivem e trabalhar no mesmo prédio.
A origem militar e o terremoto que mudou tudo
Whittier não nasceu como cidade comum. Foi criada durante a Guerra Fria como uma base militar secreta dos Estados Unidos, estrategicamente posicionada para treinamentos e operações sigilosas. O plano original previa a construção de dez grandes edifícios para abrigar militares. Apenas dois foram erguidos. Um está em uso. O outro permanece completamente abandonado ao lado do Hodge Building, grafitado, interditado e pertencente ao governo federal.
A transformação em comunidade civil veio de uma tragédia. Em 1964, um dos maiores terremotos já registrados na história dos EUA, de magnitude 9,2, atingiu o Alasca e gerou um tsunami devastador que destruiu as casas espalhadas pela região. Os moradores se refugiaram nos quartéis militares de concreto e perceberam que viver sob um único teto era, simplesmente, mais seguro e mais prático. Nunca mais saíram.
Isolamento ou comunidade mais forte do mundo
Fora do prédio, Whittier tem poucos recursos: um museu fechado no inverno, o hotel Anchor Inn, um bar e restaurante que serve como ponto de encontro social e alguns duplexes habitados por moradores que preferem o espaço externo, mesmo que isso signifique caminhar longas distâncias no frio para levar os filhos à escola. A fauna local inclui focas, lontras, morsas e ursos, além de uma rena chamada Manu, o único animal de criação de todo o vilarejo.
Whittier desafia qualquer definição convencional de cidade, vizinhança ou comunidade. Aqui, todo mundo sabe o nome de todo mundo, divide a mesma lavanderia, passa pelos mesmos corredores e enfrenta o mesmo inverno. O que o clima extremo forçou a criar acabou sendo algo que muito lugar no mundo tenta, sem conseguir: uma comunidade onde as pessoas realmente vivem juntas, no sentido mais literal e humano da palavra.
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