O mundo quer seu ouro de volta
Bancos centrais aceleram a repatriação de ouro e reduzem a dependência de cofres estrangeiros diante de sanções, conflitos e incertezas
O ouro que durante décadas permaneceu guardado em cofres de Londres e Nova York está voltando para casa. Bancos centrais de vários países passaram a transferir parte de suas reservas do metal para seus próprios territórios, alterando uma prática que dominou o sistema financeiro internacional por gerações.
A mudança ocorre enquanto o ouro ganha peso nas reservas internacionais. Segundo levantamento do Conselho Mundial do Ouro, quase metade dos bancos centrais consultados pretende aumentar suas compras nos próximos doze meses, mesmo após oscilações recentes nos preços.
O estudo mostra que 19% das instituições entrevistadas ampliaram o armazenamento doméstico ou diversificaram os locais onde mantêm suas reservas. Um ano antes, esse percentual era de apenas 7%.
Essa tendência reflete um movimento maior de acumulação. Nos últimos quatro anos, os bancos centrais compraram em média mil toneladas de ouro por ano, o dobro da média da década anterior.
Além disso, 89% dos entrevistados pelo Conselho Mundial do Ouro projetam alta nas reservas globais nos próximos 12 meses, com 74% deles esperando redução na participação do dólar nas reservas internacionais.
O Financial Times destaca a avaliação de Shaokai Fan, dirigente do Conselho Mundial do Ouro, segundo quem preocupações geopolíticas e receios sobre o acesso permanente às reservas estão influenciando as decisões. Como resumiu o executivo, os bancos centrais querem garantir “acesso total ao seu ouro em todos os momentos”.
A Índia aparece entre os exemplos mais expressivos. Em poucos anos, a parcela de suas reservas mantida no exterior caiu de 55% para 22%, segundo dados citados pelo jornal. A França também transferiu grandes volumes armazenados nos Estados Unidos para território francês.
Após a crise financeira de 2008, vários países passaram a questionar a dependência de cofres estrangeiros. Alemanha, Holanda, Polônia, Hungria e Sérvia estão entre os casos frequentemente mencionados no debate sobre repatriação.
O tema ganhou força adicional depois das sanções impostas à Rússia. Para diversos bancos centrais, a possibilidade de ativos internacionais ficarem sujeitos a decisões políticas de governos estrangeiros alterou os cálculos sobre onde manter reservas estratégicas.
Os números mostram uma redução gradual da dependência dos cofres tradicionais. A participação de bancos centrais que armazenam ouro no Banco da Inglaterra caiu de 64% para 57%. No Federal Reserve de Nova York, o índice recuou de 17% para 14%.
Ao mesmo tempo, novos polos tentam atrair parte desse mercado. Singapura anunciou serviços de custódia voltados a bancos centrais estrangeiros e um novo sistema de compensação para negociações de ouro físico.
Para muitos gestores de reservas, o ouro continua oferecendo algo que poucos ativos financeiros conseguem reproduzir.
A pesquisa do Conselho Mundial do Ouro mostra que 90% dos entrevistados apontam seu desempenho em períodos de crise como principal motivo para mantê-lo, ao lado da preservação de valor no longo prazo e da proteção contra riscos geopolíticos.
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