‘Bloomsday’ e o livro impossível de James Joyce
Romance publicado em 1922, ‘Ulysses’ é celebrado anualmente no dia 16 de junho, com eventos em diferentes países
Leitores de todo o mundo (ainda existem? Existem, tenho fé) marcaram o dia 16 de junho de 2026 com fantasias, leituras coletivas e percursos pelos cenários descritos em Ulysses(ou Ulisses), romance dos romances escrito pelo irlandês James Joyce e publicado em 1922.
A data, conhecida como “Bloomsday”, homenageia Leopold Bloom, protagonista da obra, cuja história transcorre inteiramente em um único dia. Dublin concentra as principais celebrações, que acontecem em vários países do mundo – inclusive no Brasil.
Quem tem medo de James Joyce?
Com mais de 800 páginas em algumas edições, o livro tem (com razão) a fama de leitura difícil até para os leitores mais experientes. Compensa? Compensa muito.
O Estadão conversou com Caetano W. Galindo, Dirce Waltrick do Amarante e Marcelo Tápia sobre a longa história que se passa em um único dia – 16 de junho de 1904, quando Leopold Bloom sai de casa pela manhã, em Dublin, cumpre suas obrigações, e volta. É só isso. Mas não é só isso. É tudo isso.
Difícil, fácil ou impossível?
O escritor e tradutor (inclusive de Ulysses) Caetano Galindo disse ao Estadão que “é trabalhoso. O Ulysses é um livro que não te trata como se você fosse menos do que é. Ele prefere te tratar como se você fosse um pouco mais inteligente do que ACHA que é. E você, com tempo, paciência, e atenção ao que o livro vai ensinando, acaba se descobrindo bem mais inteligente do que pensava”.
Para Marcelo Tápia, poeta e tradutor, “ler Ulysses não só é possível como desejável, pois é um livro fascinante. Oferece dificuldades, sim, mas permite diversos níveis de leitura. Vale a pena dedicar um tempo para lê-lo, é uma experiência marcante, enriquecedora e transformadora. Não é para quem só busca entretenimento, embora seja, também, divertido”.
Já a escritora Dirce Waltrick do Amarante prefere que se questione: “O que seria uma leitura difícil? Na minha opinião, uma leitura difícil é aquela que se faz por obrigação. Mas, é bem verdade que, parafraseando Pierre Bourdieu, só se gosta daquilo que se conhece, de maneira que, em literatura (ou em arte de um modo geral), gostamos do que conseguimos conceituar. Porém, para que isso aconteça, temos que ter certa intimidade com ela, o que só acontece quando conseguimos atravessar a barreira do desconhecido, e essa, sim, é difícil de transpor. Portanto, nosso gosto pela literatura, e aqui mais uma vez concordo com Bourdieu, começa de forma forçada e depois se naturaliza. Então, achamos que já nascemos gostando, por exemplo, de determinados livros, quando na verdade fomos instruídos a gostar deles. Com Ulisses não é diferente”.
Tá bom. Mas é bom?
Galindo acredita que Ulysses talvez seja “a mais profunda e (acima de tudo) mais divertida exploração da consciência humana, em suas esquisitices, dores, verdades e mentiras. Além, claro, de ser uma viagem sem tamanho em termos de invenção formal. Acima de tudo, o leitor ou a leitora vão encontrar, Leopold Bloom, o personagem de romance que vai se tornar seu melhor amigo”.
Tápia diz que “Ulysses propicia ao leitor uma vivência intensa: é um livro que parece conter tudo sobre o ser humano, a vida e a morte, embora se passe num único dia. De certo modo, todos os elementos da existência estão lá representados, suscitando emoções e reflexões: amor, traição, sexo, preconceitos, estigmas, fantasia, perversão, delírio, amizade, sofrimento, prazer…”.
E Dirce Waltrick explica que “Ulisses tem muitos romances em um só, como disse acima. De modo que em cada nova leitura temos um livro novo, novas conexões se formam, outras se desfazem… O leitor vai encontrar o que lhe interessar. Toda a leitura é autobiográfica. Quanto mais informações ele tiver sobre Joyce, a Irlanda, literatura, filosofia etc. melhor, mas isso não significa que não se possa ou não se deva ler sem todas essas informações prévias”.
Com y ou com i?
A variação da grafia – Ulysses ou Ulisses – depende do gosto do tradutor. No Brasil, temos (o privilégio de ter) três versões do clássico.
A primeira, do filólogo Antônio Houaiss (sim, o do dicionário), talvez seja a mais difícil. Pesada, erudita, com os méritos e os “deméritos” de ter sido a primeira integral em português. Um colosso linguístico que virou referência para as seguintes e porta para os leitores. Continua em catálogo e opta pela grafia “Ulisses”.
A segunda, da professora, tradutora e crítica literária Bernardina Pinheiro, seguiu a direção contrária: assumiu a coloquialidade do texto e conseguiu mostrar que James Joyce era também, ou sobretudo, um humorista. “Ulisses” é mais acessível do que parecia.
Já o “Ulysses”, de Caetano Galindo, assume o y e consegue uma versão equilibrada – não necessariamente melhor ou pior – entre as duas outras traduções. Seu trabalho confirma o que está sugerido nos dois primeiros: Ulisses ou Ulysses é um livro inesgotável até para os leitores do inglês (cheio de tantos outros idiomas) do texto de Joyce.
Como faço para ler Ulysses?
Abra na primeira página: leia. Vá para a segunda: leia. Continue na terceira: leia. E assim até chegar à última. Tente, livro não morde. Não trate a literatura com tanta reverência. Trate como uma diversão (às vezes) um pouquinho mais complicada. Aproveite que temos três traduções diferentes. Se mesmo assim não gostar? Não leia. Leia daqui a um ano, daqui a dez anos. Tente de novo, livro não morre.
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