Em clima de Copa, relembre a Taça da Copa do Mundo que sobreviveu à guerra, mas não resistiu ao descaso no Brasil
O troféu original da Copa carrega uma trajetória de guerra, roubo, glória brasileira e um desaparecimento que virou mistério histórico
Com a Copa do Mundo acontecendo nesse momento, vale relembrar um dos maiores mistérios do futebol mundial: o destino da Taça Jules Rimet, o troféu original do campeonato, que foi roubado duas vezes, escondido debaixo de uma cama durante a Segunda Guerra Mundial e, depois de conquistado definitivamente pelo Brasil em 1970, desapareceu no Rio de Janeiro e provavelmente acabou derretido. A história é tão cinematográfica que parece roteiro de filme, mas aconteceu de verdade.
Como nasceu a taça mais famosa do futebol
Antes de existir uma Copa do Mundo, o futebol era disputado dentro das Olimpíadas. Foi apenas em 1928 que o presidente da FIFA, o francês Jules Rimet, decidiu que o esporte merecia um campeonato mundial próprio. A primeira edição aconteceu em 1930, no Uruguai, com apenas 13 seleções participantes. No mesmo navio que trouxe a delegação europeia viajava Jules Rimet com a taça recém-criada.
O troféu era imponente: cerca de 30 cm de altura, quase 4 kg, construído com ouro 18 quilates, base de mármore e uma escultura da deusa grega Nike no topo. Rimet também criou uma regra que transformaria o objeto em algo ainda mais cobiçado: o primeiro país que conquistasse o título três vezes ficaria com a taça para sempre.

A guerra, a caixa de sapatos e o primeiro sumiço da taça
Com a Itália bicampeã em 1938 e a Segunda Guerra Mundial interrompendo as Copas seguintes, surgiu um risco real: os nazistas podiam se apropriar do troféu, guardado em um cofre em Roma. O vice-presidente da FIFA, o italiano Ottorino Barassi, agiu por conta própria para evitar o pior.
Ele retirou a taça do cofre, colocou dentro de uma caixa de sapatos e a escondeu debaixo da própria cama durante toda a guerra. Ao fim do conflito, Barassi revelou o esconderijo e devolveu o troféu intacto. Era o primeiro desaparecimento da Jules Rimet, motivado por proteção. O segundo não teria final tão feliz.
O roubo na Inglaterra e o cachorro que virou herói nacional
Em 1966, antes da Copa realizada na Inglaterra, a taça foi exposta em um centro de convenções em Londres. Apesar do esquema de segurança, o troféu foi roubado logo no primeiro dia. A Scotland Yard abriu investigação, mas os dias passavam sem respostas. O constrangimento era enorme: o país-sede do Mundial havia perdido o próprio troféu.
Uma semana depois, um inglês chamado David Corbett passeava com seu cachorro, Pickles, pelo sul de Londres. O animal começou a farejar um arbusto e encontrou um pacote embrulhado em jornal. Dentro estava a Taça Jules Rimet. Pickles virou herói nacional e ganhou ração vitalícia. O mistério do roubo, porém, nunca foi completamente esclarecido.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Manual do Mundo e CazéTV contando a história da taça roubada duas vezes.
O Brasil conquista a taça para sempre e perde para sempre
A final da Copa de 1970, no México, reuniu exatamente as duas seleções que ainda disputavam a posse definitiva da Jules Rimet. De um lado, o Brasil, bicampeão. Do outro, a Itália, também bicampeã. Quem vencesse levaria o troféu para casa para nunca mais devolver. A seleção brasileira, considerada uma das melhores de todos os tempos, venceu por 4 a 1. O capitão Carlos Alberto Torres levantou a taça. O Brasil tinha o direito de guardá-la para sempre.
A trajetória seguinte do troféu, porém, foi trágica. Ele ficou exposto na sede da CBF, no Rio de Janeiro, protegido por vidro blindado, mas com base de madeira. Em dezembro de 1983, ladrões arrombaram a proteção com um pé de cabra e levaram a taça. Desta vez, nenhum cachorro encontraria o troféu. As investigações apontaram para um destino brutal:
O que ficou da taça mais roubada da história do futebol
Depois do roubo, a FIFA já havia criado um novo troféu desde 1974, o Troféu Copa do Mundo FIFA, usado até hoje. A regra da posse definitiva não existe mais: o campeão levanta o original, tira as fotos e devolve. Para casa, leva apenas uma réplica banhada a ouro. Uma precaução que veio tarde demais para salvar a Jules Rimet.
A taça que sobreviveu a duas guerras, atravessou oceanos em navios, ficou escondida debaixo de uma cama e foi encontrada por um cachorro não resistiu ao descaso de uma vitrine com base de madeira. Antes de cada Copa do Mundo, vale lembrar que o troféu mais importante da história do futebol provavelmente virou lingote em algum lugar do Rio de Janeiro, décadas atrás, e nunca mais voltou.
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