A máquina de 109 metros que cava São Paulo por baixo enquanto milhões passam pela superfície sem imaginar nada
A tuneladora funciona como uma fábrica móvel subterrânea, escavando, revestindo e avançando sob a cidade com precisão milimétrica
A poucos metros abaixo das ruas de São Paulo, uma máquina de 109 metros de comprimento trabalha sem parar, dia e noite, abrindo caminho pelo subsolo da cidade. Ela se chama Tatuzão, e é a responsável por escavar os túneis da nova Linha 6-Laranja do Metrô, que vai ligar a Brasilândia à região central. O que acontece lá embaixo é uma das operações de engenharia mais impressionantes já realizadas no Brasil, e a maioria das pessoas passa pela superfície sem fazer ideia.
O que é o Tatuzão e por que ele é diferente de tudo que você imagina
O nome remete a algo pequeno cavando terra, mas o Tatuzão, tecnicamente chamado de TBM (Tunnel Boring Machine), é uma estrutura colossal. Com 109 metros de comprimento e cerca de 10 metros de altura, ele se parece mais com um trem industrial do que com qualquer equipamento de escavação convencional. Internamente, opera em vários níveis e funciona como uma verdadeira fábrica em movimento.
A máquina trabalha 24 horas por dia, com equipes se revezando em turnos, com pelo menos 20 trabalhadores ativos ao mesmo tempo. Para chegar até ela, a equipe desce por um elevador instalado em um poço próximo ao estádio do Pacaembu e percorre cerca de 1 km dentro do túnel em um veículo especial chamado trackless, que circula sem trilhos e possui cabines nas duas extremidades, já que não há espaço para manobras de retorno dentro do túnel.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Manual do Mundo mostrando como funciona o uso do “tatuzão” na construção.
Como a tuneladora abre caminho pelo subsolo
Na ponta do Tatuzão fica uma estrutura giratória comparada a um ralador gigante, responsável por triturar o solo à frente. O processo não ocorre a seco: uma espuma especial, feita de um polímero superabsorvente semelhante ao material usado em fraldas, é aplicada continuamente para resfriar a área, estabilizar o solo e facilitar a retirada do material escavado.
O avanço da máquina não depende de rodas ou trilhos, mas de 50 pistões hidráulicos que empurram a estrutura para a frente, apoiando-se no trecho do túnel já construído. Quando é necessário fazer uma curva, os pistões de um lado se esticam mais do que os do outro, direcionando o trajeto com precisão milimétrica.
O que acontece com o túnel logo depois da escavação
Assim que a frente avança, o túnel já começa a ser revestido. Placas de concreto pré-fabricadas, chamadas aduelas, são instaladas imediatamente atrás da área de escavação. Veja como funciona esse processo:
Os mesmos pistões que empurram a máquina também apertam e fixam os anéis de concreto, garantindo que tudo fique no lugar enquanto o Tatuzão segue em frente.

A segurança dentro de uma máquina que trabalha a 60 metros de profundidade
Trabalhar no subsolo urbano exige protocolos de segurança rigorosos. O Tatuzão conta com uma câmara de refúgio com capacidade para 26 pessoas, equipada com reservatório de oxigênio, água, comida em formato de ração militar, filtros de monóxido de carbono e gás carbônico, além de sistema de monitoramento do ambiente externo. Em situações de acidente, inundação ou incêndio, a equipe pode permanecer protegida por até 2 horas.
Para acessar a frente pressurizada da máquina em trabalhos de manutenção, existe uma câmara hiperbárica, que funciona como uma câmara de passagem: a pessoa entra, as portas são fechadas, a pressão é equalizada e só então é possível avançar. Os manômetros marcam até 6 bar, o equivalente à pressão encontrada a 60 metros de profundidade no mar.
O túnel está pronto, mas o metrô ainda não
Mesmo depois que o Tatuzão passa, o trabalho está longe de terminar. O túnel escavado e revestido precisa receber ainda uma camada de concreto para nivelar o piso, a base para os trilhos e todos os sistemas elétricos e operacionais necessários para que os trens circulem. É um processo que exige meses de trabalho adicional em cada trecho concluído.
Quando a Linha 6-Laranja finalmente entrar em operação, os passageiros que cruzarem o trecho entre as estações FAAP-Pacaembu e Higienópolis-Mackenzie estarão viajando por um túnel construído milímetro a milímetro, anel por anel, por uma das máquinas mais complexas já operadas no Brasil. Tudo isso aconteceu a poucos metros de profundidade, em silêncio, enquanto a cidade seguia sua rotina lá em cima.
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