Lincoln Center oferece música clássica a pacientes com demência
Programa gratuito em Nova York une arte e cuidado para um público crescente e negligenciado
Um complexo cultural de referência em Nova York passou a integrar a rotina de idosos com comprometimento cognitivo ao abrir suas portas para apresentações adaptadas e gratuitas voltadas a pessoas com demência e seus acompanhantes.
O Lincoln Center, no Upper West Side de Manhattan, mantém há dez anos uma série de concertos desenhada para atender esse público, que inclui sessões seguidas de atividades práticas conduzidas por musicoterapeutas.
Da plateia ao palco adaptado
A iniciativa surgiu após a instituição perceber que parte de sua audiência mais fiel estava se afastando: “Estávamos ouvindo cada vez mais de nossos assinantes da Filarmônica e da Sociedade de Música de Câmara que eles não estavam renovando suas assinaturas por causa da demência”, afirmou Miranda Hoffner, diretora de acessibilidade do Lincoln Center, segundo informações da AFP. “Era um público que realmente nos apoiava havia, em alguns casos, décadas. Sentimos a responsabilidade de preencher essa lacuna”.
Os eventos seguem um formato menos rígido do que os concertos tradicionais de música clássica. A plateia é incentivada a reagir livremente à música — batendo palmas, movimentando os pés ou cantarolando.
Segundo Hoffner, “você verá pessoas de mãos dadas, verá pessoas batendo o pé no ritmo, verá pessoas participando vocalmente da música”. Após as apresentações, oficinas com educadores artísticos e musicoterapeutas estimulam o engajamento dos participantes.
Um problema de saúde sem resposta nacional
De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, cerca de 57 milhões de pessoas viviam com demência no mundo em 2021, com aproximadamente 10 milhões de novos casos registrados a cada ano. A condição não tem cura e evolui de forma progressiva.
O envelhecimento dos chamados Baby Boomers — geração nascida no período de aumento populacional após a Segunda Guerra Mundial — contribui para o crescimento dos casos.
Emily Finkelstein, especialista em geriatria do centro médico NewYork-Presbyterian, aponta que esse grupo está vivendo mais e, com isso, enfrentando mais doenças crônicas associadas à velhice, entre elas a demência.
A médica reconhece o valor das terapias baseadas em arte, música e dança para pessoas com perda cognitiva, mas alerta para a fragmentação do acesso nos Estados Unidos: “Não temos um programa nacional de saúde. É muito mais complicado estruturar e expandir esse tipo de programa, embora saibamos que eles são benéficos”, declarou à AFP.
Vidas reorganizadas em torno da música
Entre os frequentadores do programa está Rob Kaufman, 73 anos, ex-músico de estúdio e ex-professor. No início dos seus 60 anos, ele sofreu uma emergência médica que resultou em lesão cerebral traumática, com sequelas que incluem perda significativa de memória de curto prazo. A musicoterapia integrou sua reabilitação após semanas de internação e tratamento.
Sua esposa, Ellen Kaufman, acompanha o marido nos concertos e descreve o impacto do convívio com outras famílias na mesma situação. “Significa muito para nós ter isso”, disse ela. “Para todos aqui, não é fácil. Vejo o que meus amigos estão enfrentando. Eles estão vendo seus maridos mudarem. Mas eles fazem isso junto com eles”.
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