Eleitores de Trump defendem a censura? Depende
Estudo aponta que declarações de líderes políticos influenciam diretamente a opinião de seus apoiadores sobre direitos constitucionais
Quando líderes políticos defendem restrições à liberdade de expressão, seus eleitores também defendem — e os adversários reagem na direção contrária.
É o que indica uma pesquisa publicada nos Proceedings of the National Academy of Sciences, que analisou como a mudança de discurso da administração Trump, após o assassinato do ativista conservador Charlie Kirk, em setembro de 2025, mudou as atitudes de americanos em relação à censura governamental.
Da defesa ao controle da fala
Por anos, Donald Trump se posicionou publicamente como defensor da liberdade de expressão. Depois da morte de Kirk, porém, Trump e aliados passaram a argumentar que determinadas formas de manifestação não deveriam ser protegidas pela Primeira Emenda da Constituição americana — em especial cobertura jornalística considerada excessivamente negativa ao governo.
Segundo o estudo, esse tipo de virada retórica por parte de um presidente em exercício é incomum na história política recente dos Estados Unidos: “Trump havia se apresentado como defensor da liberdade de expressão por anos. Mas, de repente, Trump e seus aliados passaram a afirmar repetidamente que várias formas de expressão não eram protegidas pela Primeira Emenda”, disse Matthew E. K. Hall, diretor do Instituto de Democracia Rooney, da Universidade de Notre Dame, e autor principal da pesquisa.
Experimento com 1.305 participantes
Para medir os efeitos dessa mudança de discurso, os pesquisadores realizaram um experimento online com 1.305 adultos americanos, divididos proporcionalmente por idade, gênero, escolaridade e raça. O grupo era composto por 653 eleitores de Trump em 2024 e 652 pessoas que não votaram nele — incluindo eleitores de Kamala Harris, de terceiros partidos e abstencionistas.
Os participantes foram distribuídos aleatoriamente em três grupos.
O primeiro leu declarações contrárias à liberdade de expressão, adaptadas de falas reais de Trump, do presidente da Comissão Federal de Comunicações, Brendan Carr, e da procuradora-geral Pam Bondi.
O segundo grupo leu versões invertidas dessas mesmas declarações, transformadas em defesa da liberdade de expressão.
O terceiro não leu nenhum material e serviu como grupo de controle.
Parte dos participantes viu as citações atribuídas aos seus autores reais; outra parte viu os mesmos textos atribuídos a um “político proeminente” genérico — artifício que permitiu aos pesquisadores avaliar se a identidade do falante alterava o impacto da mensagem.
Efeitos opostos conforme o voto
Os resultados mostraram padrões distintos entre os dois grupos.
Entre os eleitores de Trump, a leitura de declarações antiliberdade de expressão aumentou o apoio à censura governamental de veículos de mídia e indivíduos ligados ao partido adversário. Já entre os não eleitores de Trump, o efeito foi o inverso: a exposição ao mesmo conteúdo gerou maior resistência à censura e maior disposição a proteger a fala do grupo oponente.
“Nossos resultados sugerem que os republicanos são mais devotos a apoiar Trump do que à liberdade de expressão, enquanto os democratas apoiam mais a liberdade de expressão quando ouvem Trump se opor a ela”, afirmou Hall.
Um dado adicional chamou a atenção dos pesquisadores: a atribuição das declarações ao próprio Trump ou a um político anônimo não alterou os resultados: “Fiquei surpreso que os republicanos reagiram da mesma forma, independentemente de termos dito que a retórica vinha de Trump e seus aliados ou não”, disse Hall.
Para os autores, isso indica que o tom e o estilo da linguagem já carregam marcadores partidários reconhecíveis.
Efeitos podem ser passageiros — ou não
Os autores reconhecem limitações no estudo, sobretudo quanto à durabilidade das mudanças observadas. É possível que o aumento do apoio à censura entre eleitores de Trump reflita uma reação pontual ao contexto do momento, e que esses eleitores retornem gradualmente às posições anteriores.
De acordo com a pesquisa, a permanência das mudanças dependerá, em grande medida, de quanto tempo líderes políticos continuarem a normalizar discursos contrários à liberdade de expressão. Se essa retórica se consolidar como padrão, as alterações de opinião poderão se tornar estruturais — com consequências de longo prazo para as normas democráticas.
O estudo, assinado por Matthew E. K. Hall, B. Tyler Leigh e Brittany C. Solomon, pode ser lido na íntegra aqui.
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