Estudo revela conexão entre força muscular e saúde mental
Pesquisadores acreditam ter identificado o mecanismo pelo qual a atividade física age sugere nova rota terapêutica para transtornos do humor
Uma proteína liberada pelos músculos durante a prática de exercícios físicos é capaz de estimular o crescimento de células nervosas e reverter ou minimizar comportamentos associados à depressão.
Essa é a conclusão de uma pesquisa publicada na revista Molecular Psychiatry, conduzida por cientistas da Universidade Politécnica de Hong Kong.
O estudo mapeou, pela primeira vez com esse nível de detalhamento, a cadeia de reações biológicas que liga a contração muscular à regulação do humor — e aponta que o mecanismo pode ser ativado mesmo sem a realização de exercícios.
Do músculo ao cérebro
Durante a atividade física, os músculos produzem e liberam na corrente sanguínea um conjunto de proteínas chamadas miocinas. Entre elas está a apelina, substância sintetizada principalmente pelos músculos da panturrilha e da parte anterior da perna.
Segundo o estudo, os níveis dessa proteína aumentam de forma expressiva durante o esforço físico e, ao alcançar o hipocampo, região cerebral associada à memória e ao controle emocional, disparam uma série de reações que fortalecem as conexões entre neurônios e estimulam o surgimento de novas células nervosas.
O trabalho envolveu experimentos com camundongos adultos submetidos a rotinas de estresse leve e imprevisível por quatro semanas, procedimento utilizado para induzir comportamentos semelhantes aos da depressão. Uma parte dos animais passou a ter acesso a rodas de corrida por mais quatro semanas.
Os pesquisadores avaliaram o estado emocional dos camundongos por meio de três testes comportamentais: preferência por solução adocicada, tempo dedicado à higiene pessoal e tempo de imobilidade em tanque de água.
Os animais que se exercitaram apresentaram melhora nos três indicadores. Ao examinar o sangue e o tecido cerebral desse grupo, os cientistas constataram concentrações mais altas de apelina e maior crescimento de células nervosas no hipocampo.
Exercício dispensável, proteína indispensável
Para confirmar o papel da apelina, a equipe criou camundongos geneticamente modificados incapazes de produzir a proteína nos tecidos musculares. Esses animais foram submetidos ao mesmo programa de corrida, mas não apresentaram nenhuma das melhorias observadas nos camundongos normais — nem comportamentais, nem no crescimento neuronal.
O experimento seguinte foi ainda mais revelador. Os pesquisadores injetaram nos músculos das pernas de camundongos deprimidos um vírus modificado, projetado para forçar as células musculares a produzir grandes quantidades de apelina sem que os animais realizassem qualquer exercício. O resultado foi equivalente ao obtido com a atividade física: melhora no humor e aumento da neurogênese.
Envelhecimento e saúde mental
O artigo também conecta os achados a um problema de saúde pública associado ao envelhecimento. Adultos mais velhos que perdem massa muscular de forma progressiva — condição conhecida como sarcopenia — tendem a apresentar concentrações mais baixas de apelina no sangue e registram taxas mais altas de depressão e deterioração cognitiva.
“A sarcopenia está significativamente associada à depressão e ao declínio cognitivo em adultos mais velhos, o que desperta interesse nos fatores secretados pelos músculos que influenciam a função do hipocampo”, afirmou Sonata Suk-yu Yau, professora-associada do Departamento de Ciências da Reabilitação da universidade e uma das responsáveis pela pesquisa.
A pesquisadora também destacou os limites do trabalho e os passos seguintes: “Este estudo foi limitado a camundongos machos adultos; a validação futura em fêmeas, animais idosos e humanos é indispensável”, disse. Ela acrescentou que diferenças hormonais entre os sexos e variações na proporção de massa muscular podem alterar tanto a quantidade de apelina produzida quanto a resposta ao exercício.
Outro ponto em aberto é a identificação da forma exata da proteína responsável pelos efeitos observados, já que a apelina pode se fragmentar em diferentes versões ativas no organismo. Os pesquisadores também não testaram se a substância influencia funções cognitivas como aprendizado e memória — um caminho que pretendem explorar nas próximas etapas da investigação.
“Manter a força e a função muscular é fundamental para prevenir a depressão, e uma das melhores formas de alcançar isso é com treinamento físico regular”, concluiu Yau.
O artigo “How muscle talks to brain: apelin protein mediates exercise-induced antidepressant effects”, de Jiasui Yu e colaboradores, pode ser lido na íntegra aqui.
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