Mistério no fundo do mar: cientistas detectam oxigênio escuro sendo produzido onde a luz nunca consegue chegar
O fenômeno observado nas profundezas desafia explicações conhecidas sobre a formação de oxigênio no planeta
A mais de 4 mil metros de profundidade no Oceano Pacífico, sensores registraram um aumento inesperado na concentração de oxigênio dentro de câmaras instaladas sobre o fundo marinho. O fenômeno ocorreu em uma região sem luz suficiente para fotossíntese e levantou a hipótese de que rochas ricas em metais possam participar de uma forma desconhecida de produção de oxigênio.
Por que o aumento de oxigênio surpreendeu os pesquisadores?
Em ambientes abissais, organismos e reações químicas normalmente consomem o oxigênio dissolvido que chega das camadas superiores do oceano. Por isso, os pesquisadores esperavam observar uma redução gradual do gás durante os experimentos realizados na Zona Clarion-Clipperton, uma extensa planície submarina localizada entre o México e o Havaí.
O resultado seguiu na direção contrária. Em 25 incubações feitas com câmaras bentônicas, a concentração de oxigênio aumentou ao longo de aproximadamente 47 horas, chegando em alguns casos a mais de três vezes o nível inicial. Medições independentes também indicaram elevação, levando a equipe a investigar se o fundo marinho poderia estar produzindo oxigênio em completa escuridão.
O que é o oxigênio escuro detectado no fundo do Pacífico?
Oxigênio escuro é o nome dado ao oxigênio molecular aparentemente produzido em um ambiente sem luz e, portanto, sem a fotossíntese convencional realizada por plantas, algas e cianobactérias. A expressão descreve o local escuro onde o gás foi registrado, não uma forma diferente de oxigênio.
O fenômeno foi relatado por uma equipe liderada pelo pesquisador Andrew Sweetman em um estudo publicado em 22 de julho de 2024. Os experimentos aconteceram na área de licença NORI-D da Zona Clarion-Clipperton, onde o leito oceânico é coberto por grande quantidade de nódulos polimetálicos ricos em manganês, níquel, cobre e cobalto.
- Profundidade próxima de 4 mil metros abaixo da superfície
- Ausência de luz suficiente para sustentar fotossíntese
- Aumento de oxigênio observado dentro de câmaras experimentais
- Presença de nódulos polimetálicos sobre o sedimento abissal
Para aprofundar a descoberta, o canal TV Unicamp, que conta com mais de 96,5 mil inscritos no YouTube, explica o que é o oxigênio escuro e por que sua possível produção sem luz solar pode mudar a compreensão sobre a oxigenação dos oceanos e a origem da vida. O vídeo também aborda o papel dos nódulos polimetálicos e as hipóteses científicas levantadas pela descoberta, alinhado ao tema tratado acima:
Como os nódulos podem agir como baterias naturais?
Os nódulos polimetálicos crescem muito lentamente ao redor de pequenos fragmentos no fundo do mar e concentram camadas de óxidos metálicos. Ao medir diferentes pontos dessas formações, os pesquisadores encontraram potenciais elétricos de até 0,95 volt e propuseram que conjuntos de nódulos poderiam funcionar como pequenas células eletroquímicas.
A hipótese apresentada no estudo original publicado na revista Nature Geoscience sugere que essa diferença de potencial poderia contribuir para separar moléculas de água e liberar oxigênio por eletrólise. Entretanto, a equipe tratou esse mecanismo como uma possibilidade, não como uma explicação definitivamente demonstrada, e não apresentou uma medição correspondente de hidrogênio, que seria esperado na divisão da água.
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O que os dados sobre o oxigênio escuro mostram?
Os experimentos indicaram produção líquida estimada entre 1,7 e 18 milimoles de oxigênio por metro quadrado por dia. A intensidade variou entre as câmaras e apresentou relação com a área superficial dos nódulos, mas os próprios autores alertaram que os resultados não deveriam ser ampliados automaticamente para toda a Zona Clarion-Clipperton.
Os números revelam uma anomalia importante, mas não comprovam sozinhos a origem do gás. Em abril de 2026, a Nature Geoscience adicionou uma nota editorial informando que aspectos do artigo estavam sob análise, enquanto novas expedições com robôs submarinos foram planejadas para testar o fenômeno diretamente no fundo do Pacífico.
Por que parte da comunidade científica contesta a explicação?
Pesquisadores críticos afirmam que a tensão elétrica medida seria insuficiente para provocar espontaneamente a eletrólise da água. Em condições ideais, a reação exige pelo menos 1,23 volt, além de energia adicional para superar limitações práticas. Eles também questionam controles experimentais, diferenças entre concentrações iniciais e a falta de detecção de hidrogênio.
Essas dúvidas não demonstram automaticamente que todo o aumento de oxigênio foi um erro, mas impedem que os nódulos sejam tratados como baterias naturais confirmadas. Entre as explicações alternativas estão entrada de ar nas câmaras, liberação de oxigênio preso em materiais e processos químicos ou biológicos ainda não identificados.
- Repetir as medições com equipamentos e equipes independentes
- Procurar hidrogênio e outros produtos esperados da eletrólise
- Controlar possíveis bolhas e contaminações durante a descida
- Comparar áreas com nódulos a sedimentos sem essas formações

O oxigênio escuro pode mudar o debate sobre a mineração submarina?
Os nódulos da Zona Clarion-Clipperton concentram metais procurados pelas indústrias de baterias, eletrônicos e tecnologias energéticas. Empresas estudam máquinas capazes de recolher essas formações do sedimento, mas a retirada também pode eliminar habitats e levantar plumas de partículas em ecossistemas que se recuperam lentamente. A possibilidade de os nódulos participarem do ciclo local de oxigênio acrescenta outra pergunta aos estudos de impacto.
Mesmo que o mecanismo eletroquímico seja rejeitado, a anomalia registrada continua exigindo investigação. O oxigênio escuro ainda não pode ser apresentado como uma nova fábrica natural de gás definitivamente comprovada, mas já mostrou que o fundo do oceano guarda processos desconhecidos demais para decisões irreversíveis serem tomadas sem pesquisa independente.
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