A psicologia afirma que pessoas que cresceram sem receber elogios tem dificuldades com reconhecimento na vida adulta e passam a se cobrar mais do que o normal
Como a falta de elogios na infância afeta a recepção a reconhecimento na fase adulta
Receber um elogio deveria ser simples. Para quem cresceu sem validação emocional na infância, porém, essa experiência pode gerar desconforto, desconfiança ou até vergonha. A psicologia mostra que a ausência de reconhecimento nos primeiros anos de vida deixa marcas concretas na autoestima adulta, mas também pode desenvolver um tipo particular de força: a capacidade de se validar sem depender do outro.
O que a teoria do apego explica sobre elogios e autoestima?
A relação entre validação emocional e autoestima começa antes mesmo que a criança saber o que é um elogio. O psiquiatra britânico John Bowlby, criador da teoria do apego, demonstrou que a autoestima se constrói, em grande parte, a partir do reconhecimento positivo internalizado de um cuidador amoroso e consistentemente presente. Quando esse espelho emocional existe, a criança aprende, de forma implícita, que tem valor.
Quando o espelho está ausente, o processo se inverte. A criança não aprende que não tem valor, porque nenhum pai comunica isso explicitamente. Ela aprende algo mais difuso e persistente: que o reconhecimento externo é imprevisível, e que é mais seguro não depender dele. Esse aprendizado se torna a base de um padrão que a Escala de Autoestima de Rosenberg, desenvolvida pelo sociólogo Morris Rosenberg e publicada originalmente na *Science* em 1965, ainda é usada para mensurar em mais de 50 países.

Quais são os sinais de que alguém cresceu sem validação emocional suficiente?
Os padrões que emergem na vida adulta são reconhecíveis e consistentes na literatura de psicologia do desenvolvimento. Eles não indicam fraqueza: são adaptações que fizeram sentido em algum momento. Os mais documentados são:
O que a ciência descobriu sobre o efeito dos elogios na autoestima infantil?
Um dos achados mais contraintuitivos da psicologia contemporânea vem do pesquisador Eddie Brummelman, da Universidade de Utrecht e depois da Universidade de Ohio. Em estudo publicado na Psychological Science em 2014, Brummelman e colegas mostraram que adultos tendem a dar o dobro de elogios inflados a crianças com baixa autoestima do que a crianças com alta autoestima.
O paradoxo é que essa estratégia produz o efeito oposto ao desejado. Elogios excessivos como “você é incrivelmente bom nisso” — em vez de “você foi bem nisso” — aumentam a vergonha em crianças com baixa autoestima quando elas falham, porque o padrão implícito criado pelo elogio inflado é alto demais para ser mantido. A mesma criança que recebeu elogio moderado tentava tarefas mais difíceis; a que recebeu elogio inflado as evitava para não falhar diante de um padrão que ela sabia não conseguir cumprir.
A diferença entre elogio ao esforço e elogio à pessoa
Um segundo estudo do mesmo grupo, publicado no Journal of Experimental Psychology: General pela APA, distinguiu dois tipos de elogio: o elogio ao processo (“você trabalhou muito nisto”) e o elogio à pessoa (“você é muito inteligente”). Em crianças com baixa autoestima, o elogio à pessoa provocava maior vergonha diante do fracasso. O elogio ao esforço não tinha esse efeito prejudicial.
Como se forma o sistema interno de validação em adultos que não receberam elogios?
A ausência de validação externa na infância não deixa a criança sem referência. Ela cria uma referência própria. Ao longo do tempo, sem que ninguém confirme de fora, a pessoa aprende a julgar sozinha se fez o suficiente, se foi boa o bastante, se merece reconhecimento. Esse sistema interno pode ser funcional e até valioso, mas carrega um custo:
A tabela abaixo resume os dois lados desse sistema, com base nos padrões descritos na literatura de psicologia do desenvolvimento:
| Aspecto | Lado funcional | Custo emocional |
|---|---|---|
| Autonomia emocional Independência de validação externa | Não desmorona diante de críticas; não precisa de aprovação constante | Dificuldade de receber afeto |
| Padrão interno elevado Autoavaliação rigorosa | Alta exigência e atenção aos próprios resultados | Cobrança excessiva e rigidez |
| Desconfiança do reconhecimento Ceticismo diante de elogios | Menos vulnerável a manipulação por aprovação | Isolamento emocional |
| Foco no erro Atenção ao que falhou | Identifica problemas com rapidez; melhoria contínua | Sensação crônica de insuficiência |
O que a psicologia recomenda para quem reconhece esse padrão em si mesmo?
O primeiro passo, segundo especialistas em psicologia do desenvolvimento, é reconhecer que a dificuldade em receber elogios não é um traço de caráter fixo. É um padrão aprendido, e padrões aprendidos podem ser revistos. A autocompaixão, prática documentada na literatura psicológica como fator de proteção para autoestima, começa por aplicar a si mesmo o mesmo tratamento que se daria a um amigo próximo na mesma situação: sem minimizar, sem exigir perfeição.
Na prática, isso pode começar com gestos pequenos: aceitar um elogio sem contraargumentar (“obrigado” em vez de “ah, mas poderia ter sido melhor”); observar a tendência de focar no erro e, conscientemente, nomear também o que funcionou; e questionar se o padrão interno de exigência seria considerado razoável se aplicado a outra pessoa. Para quem sente que esses padrões causam sofrimento real no cotidiano, a terapia cognitivo-comportamental oferece ferramentas validadas para identificar e modificar esses esquemas com suporte profissional. Este artigo tem caráter informativo; para questões relacionadas à saúde mental, consulte um profissional de psicologia.
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