O maior predador aquático da América do Sul retornou depois de 40 anos

25.06.2026

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O maior predador aquático da América do Sul retornou depois de 40 anos

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8 minutos de leitura 13.06.2026 23:10 comentários
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O maior predador aquático da América do Sul retornou depois de 40 anos

O gigante das águas sul-americanas está de volta depois de 40 anos

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O maior predador aquático da América do Sul retornou depois de 40 anos
O maior predador aquático da América do Sul retornou depois de 40 anos

A ariranha-gigante (Pteronura brasiliensis), o maior mustelídeo de água doce do mundo, foi reintroduzida na Argentina em 1 de julho de 2025, quando uma família de quatro animais foi solta na Laguna Paraná, dentro do Parque Nacional Iberá, na província de Corrientes. O último registro confirmado da espécie no país datava de 1986, tornando esse retorno o primeiro caso de reintrodução de um mamífero extinto localmente na história da Argentina.

Por que a ariranha-gigante desapareceu da Argentina?

A espécie foi caçada de forma intensa entre as décadas de 1940 e 1970 pelo valor de sua pelagem no mercado internacional. Segundo a Lista Vermelha da IUCN, a Pteronura brasiliensis perdeu mais de 50% de sua população global nos últimos 15 anos e é classificada como Em Perigo de extinção desde 1999. A espécie foi extirpada do Uruguai, da Argentina e de partes do Brasil antes mesmo do fim do século XX.

No caso da Argentina, a destruição do habitat aquático somada à pressão da caça eliminou todas as populações reprodutoras conhecidas. O país ficou sem nenhum registro confirmado da espécie por quatro décadas, até a soltura coordenada pela Rewilding Argentina e pela Tompkins Conservation em julho de 2025.

O maior predador aquático da América do Sul retornou depois de 40 anos
O maior predador aquático da América do Sul retornou depois de 40 anos

Como foi o projeto de reintrodução que trouxe a ariranha-gigante de volta?

O projeto foi iniciado em 2017 pela Fundação Rewilding Argentina, com apoio do Projeto Ariranhas do Brasil e de zoológicos de sete países europeus. Levou oito anos de planejamento, seleção genética, adaptação em semicativeiro e treinamento de comportamentos selvagens como caça de peixes vivos e reconhecimento de território antes de os animais serem soltos na natureza.

As etapas principais do projeto foram:

1
2017 — início do programa A Rewilding Argentina começa a identificar animais fundadores em zoológicos europeus, em parceria com a Associação Europeia de Zoos e Aquários (EAZA) e seu Programa Europeu de Espécies Ameaçadas (EEP).
2
2019–2020 — chegada dos fundadores Coco, macho vindo do Zoológico de Givskud (Dinamarca), chega ao programa em 2019. Nima, fêmea do Zoo Aquarium de Madri (Espanha), se une ao casal fundador.
3
2024 — nascimento dos filhotes no Iberá Pirú e Kyra, os dois filhotes do casal, nascem em semicativeiro dentro do próprio Iberá, já adaptados ao ambiente onde serão soltos.
4
Início de 2025 — preparação para a soltura A família é transferida para recintos de pré-soltura, onde aprende a caçar peixes vivos, reconhecer territórios e manter vínculos sociais sem dependência humana.
5
1 jul. 2025 — soltura na Laguna Paraná A família de quatro animais é liberada no Parque Nacional Iberá, marcando a primeira reintrodução de um mamífero extinto localmente na história da Argentina.

Qual é o papel ecológico da ariranha-gigante nos pântanos do Iberá?

A Pteronura brasiliensis é o predador de topo da cadeia alimentar aquática de água doce na América do Sul. Pode atingir até 1,8 metro de comprimento e chegar a 34 kg, sendo um caçador eficiente de peixes, jacarés jovens e cobras aquáticas. Sua presença regula as populações de presas e impede o domínio de espécies oportunistas, o que mantém a diversidade de todo o ecossistema aquático.

Segundo Sebastián Di Martino, Diretor de Conservação da Rewilding Argentina, “a ariranha-gigante é o principal predador aquático dos pântanos e é essencial para manter o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.” O Iberá, com mais de 756 mil hectares de zonas úmidas protegidas, oferece abundância de alimento e ausência de ameaças significativas, tornando-o o ambiente ideal para a expansão da espécie.

A nova geração: filhotes nascidos em território argentino

Em 19 de maio de 2026, o casal Coco e Alondra teve três novos filhotes no Iberá, conforme documentado pelo programa ONU Década da Restauração. O nascimento coincidiu com o Dia Mundial das Lontras e é a confirmação mais concreta de que a reintrodução está funcionando: animais adaptados ao ambiente, reproduzindo-se de forma natural, sem intervenção humana.

Como o Iberá se tornou modelo global de restauração de fauna?

O Parque Nacional Iberá não é apenas a casa das ariranhas-gigantes reintroduzidas. É o cenário de um dos projetos de rewilding mais ambiciosos do hemisfério sul, que já devolveu ao ecossistema espécies como o tamanduá-bandeira, o veado-campeiro, o cateto e, desde 2021, o onça-pintada, com uma população estimada entre 35 e 40 indivíduos no parque até 2026. A ariranha-gigante completa o topo das duas cadeias alimentares da região: a terrestre e a aquática.

A tabela abaixo mostra as principais espécies reintroduzidas no Iberá e o status atual de cada programa:

Espécie Papel ecológico Status no Iberá
Ariranha-gigante Pteronura brasiliensis Predador de topo aquático — controla peixes e equilíbrio dos pântanos Reintroduzida em 2025
Onça-pintada Panthera onca Predador de topo terrestre — controla capivaras, jacarés e veados 35–40 indivíduos em 2026
Tamanduá-bandeira Myrmecophaga tridactyla Controle de cupins e formigas — papel estruturador do solo População estabelecida
Arara-vermelha-e-verde Ara chloropterus Dispersora de sementes nativas em escassez no Iberá Em reintrodução

O que o retorno da ariranha-gigante significa para o futuro da conservação na América do Sul?

A reintrodução da Pteronura brasiliensis no Iberá vai além de uma conquista ecológica local. A Convenção sobre Espécies Migratórias da ONU (CMS) aprovou em 2025 a inclusão da ariranha-gigante em seu anexo de espécies que exigem acordos internacionais de proteção, reconhecendo que a conservação da espécie depende de cooperação entre os 12 países sul-americanos em que ela ocorre ou ocorreu historicamente.

A Rewilding Argentina planeja novas solturas nos Esteros del Iberá e no Chaco para ampliar a conectividade entre populações. O Brasil, que ainda abriga a maior população selvagem da espécie no Pantanal e na Amazônia, com cerca de 4.659 indivíduos estimados, é peça central nessa rede. O Pró-Carnívoros, instituto brasileiro de referência em conservação de carnívoros, monitora a espécie no país e contribuiu tecnicamente para o projeto argentino. Quando a família de Coco, Nima, Pirú e Kyra mergulhou pela primeira vez na Laguna Paraná, encerrou quatro décadas de silêncio aquático e abriu um ciclo que pode ser, desta vez, permanente.

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