Um agricultor doou suas terras para a construção de um parque infantil. Agora, a prefeitura as vendeu por milhões para a construção de um centro de dados
Doações com cláusula de uso podem gerar disputas jurídicas décadas depois.
Em 1999, o agricultor Charles Bland olhou para a vizinhança onde viveu a vida toda em Taylor, no Texas, e chegou a uma conclusão simples: as crianças dali não tinham onde brincar. A solução que encontrou foi igualmente direta. Transferiu 87,97 acres de terra de sua fazenda familiar a um fundo público pelo valor simbólico de 10 dólares. O documento da doação era claro: a área deveria ser mantida em custódia para uso futuro como parque público pelo condado de Williamson. Vinte e seis anos depois, a mesma terra foi vendida por 10 milhões de dólares para uma empresa de tecnologia construir um centro de dados de 135.000 metros quadrados. O dinheiro não voltou para as crianças.
Como uma doação com condição legal virou negócio de 10 milhões de dólares?
A resposta está em uma cadeia de transferências que durou quase três décadas e foi, a cada passo, se afastando da intenção original de Bland. O terreno passou de mão em mão por fundações, órgãos municipais e corporações de desenvolvimento econômico até chegar ao comprador final. A linha do tempo abaixo mostra como o caminho foi traçado:
| Ano | Transferência | Valor |
|---|---|---|
| 1999 | Família Bland doa para a Texas Parks and Recreation Foundation | US$ 10 |
| 2003 | Transferido para a Williamson County Park Foundation, depois para a cidade de Taylor | Sem custo |
| 2008 | Cidade de Taylor repassa para a Taylor Economic Development Corporation (TEDC) | US$ 15.000 |
| 2025 | TEDC vende para a empresa Blueprint, desenvolvedora de data centers | US$ 10 milhões |
O que a escritura original dizia e por que os moradores acreditam que ela foi violada?
O documento lavrado em 7 de julho de 1999, recuperado por opositores do projeto, estipula em linguagem direta que os 87,97 acres deveriam ser “mantidos em custódia para uso futuro como área de lazer público pelo condado de Williamson, Texas”. Para os moradores, essa cláusula é uma promessa legal, não uma sugestão. Pamela Griffin, moradora que cresceu brincando naquele terreno e viu seus filhos e netos fazerem o mesmo, soube do projeto do data center apenas em 2025, quando organizadores começaram a ligar para os vizinhos. Ela mora a 500 pés do local onde as obras vão começar.

Griffin contou à imprensa o que Bland dizia ao pai dela: “Vejo que as crianças não têm onde brincar. Estou pensando em dar essa terra para parque porque elas precisam de um lugar.” A petição organizada pelos moradores argumenta que a cadeia de transferências, da fundação para a cidade e desta para a corporação de desenvolvimento econômico, não apaga a condição original imposta pelo doador. E vai além: se isso pode acontecer aqui, nenhuma doação de área verde no Texas está segura.
O que a cidade argumenta e quanto dinheiro está em jogo?
O conselho municipal de Taylor defende a venda com base em retorno econômico. A projeção apresentada oficialmente estima que o projeto da Blueprint trará até 30 milhões de dólares em receita tributária para Taylor ao longo de uma década, sendo 20 milhões destinados à educação local. Autoridades também dizem que as leis de zoneamento limitam o que ainda pode ser feito para barrar o empreendimento, mesmo que ele exija licenças de construção e aprovação urbanística que ainda estão em análise.

Dos 87 acres originais, 53 serão ocupados pelo data center. Outros 15 serão mantidos como zona de amortecimento entre o empreendimento e as casas do entorno. O projeto inclui medidas como parede de barreira, paisagismo, sistema fechado de resfriamento por água e subestação elétrica própria, como resposta às preocupações dos moradores sobre ruído, consumo de energia, uso de água e qualidade do ar. Mas para quem cresceu naquele campo, nenhum muro muda o que foi prometido.
Onde o caso está agora e quais são as chances de reversão?
Os moradores de Taylor já perderam batalhas judiciais em primeira instância e planejam recorrer a um tribunal de apelações. O argumento central é que a condição imposta na escritura original de 1999 deveria vincular todas as transferências subsequentes, independentemente de quem detinha o título em cada momento. A petição pede que os tribunais restituam o terreno à finalidade original e que o legislativo estadual do Texas feche a brecha legal que permite a organizações de desenvolvimento econômico venderem terras doadas com condição de uso, como se essa condição não existisse.
O dinheiro convence quando uma promessa feita a uma comunidade não tem preço?
O que aconteceu em Taylor não é apenas uma disputa de propriedade. É uma pergunta sobre o que vale uma palavra dada a uma comunidade quando o valor do terreno muda e os interesses em torno dele mudam junto. Bland viu crianças sem espaço e agiu. Vinte e seis anos depois, a cidade onde ele viveu verá servidores e cabos onde ele imaginou grama e playground. Os moradores ainda não desistiram, mas o tempo da construção corre em paralelo com o tempo da Justiça, e nem sempre os dois andam no mesmo ritmo.
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